Crítica | Streaming

Espontânea

Ansiedade Explosiva

(Spontaneous, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Brian Duffield
  • Roteiro: Brian Duffield
  • Elenco: Katherine Langford, Charlie Plummer, Yvonne Orji, Hayley Law, Piper Perabo, Rob Huebel, Chris Shields
  • Duração: 101 minutos

Porque filmes como A Mentira, Superbad!, Quase 18, Fora de Série e tantos outros são tão bons a ponto de criar um certo culto em torno deles? Ao longo dos tempos, grandes filmes adolescentes surgiram – Clube dos Cinco, A Garota de Rosa Shocking, Alguém muito Especial (eu sei, John Hughes esteve envolvido em um monte deles, acostume-se!), As Patricinhas de Beverly Hills, Meninas Malvadas – e todos deixam a marca de sua geração, seu tempo, e uma grande dúvida no ar: porque esses, e não aqueles? Como foram capturadas coisas tão simples assim por uma narrativa aparentemente tão simples? Como manufaturar uma fábrica para reproduzir com frequência esses raios, para que eles possam cair com frequência ainda maior? Ok, foram três dúvidas não respondidas e sempre haverão muitas outras. Bem, Espontânea se junta a essa lista, e… que esses raios continuem a nos visitar. 

O que todos esses filmes têm em comum, independente da época onde foram produzidos, é um grau de humanidade e de credibilidade que tanto seus roteiros quanto a entrega geral de elenco e da produção se desempenharam para tornar seus longas não apenas exemplares de seus temas, como também emblemáticos de muitas formas. O diretor e roteirista Brian Duffield (que escreveu os roteiros de A Babá e Amor e Monstros) adapta o romance de Aaron Starmer na sua surpreendente estreia na direção, demonstrando mais uma vez ter profundo conhecimento do universo adolescente, sabendo ler seus hábitos, reproduzir sua voz e empunhar seu espaço com credibilidade. 

Espomtânea

Como nos exemplos citados, a experiência que Espontânea nos proporciona só é absolutamente compreendida na sessão, quando todo seu potencial é apreendido graças a doses cavalares de afeto, gargalhadas e verossimilhança com seu alvo. O que provoca a fagulha extra aqui é sua catapulta para o fantástico, que tira o filme do naturalismo do qual ele bebe tão bem para situar uma escola de Covington, na Georgia, que têm visto seus alunos à beira da faculdade literalmente explodir, aos olhos de todos. Não demora para que sua obra interiorize sua discussão, com a preocupação de não sublinhar seu discurso. 

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A mola mestra do filme é aquela básica “tudo só acaba quando termina”, logo desistir não deveria ser uma opção mesmo diante do caos e da aparente desesperança. Porém o que é dito pelo roteiro é da forma mais inteligente sem parecer pedante ou auto consciente, pelo contrário, o filme parece chamar o espectador para próximo de sua narrativa e para que a diversão não seja exclusiva de quem realiza, mas principalmente de quem a consome. Ainda que o público seja o adolescente, o filme cresce no debate a respeito de seus códigos e sua linguagem, que vão além do produto descartável habitual oferecido indiscriminadamente.

Espontânea

A despretensão que o filme assume pra si é também ela um reflexo da juventude do filme, que pontualmente tem medo de morrer, mas na maior parte do filme está mais preocupada em viver do que necessariamente em impedir a morte. Mesmo tendo sido produzido antes, não deixa de ser esclarecedora essa visão sobre a juventude em momento que o paciente vitimado pela Covid-19 fica cada vez mais jovem e despreocupado, baixando a guarda para uma doença nada fictícia e letal. Na tela, sua urgência é clara e compreensiva; eles querem tudo a jato, sem pensar que igualmente supersônico chegam as consequências dos atos. 

Com um visual híbrido que mistura uma acuidade visual estética para seus personagens aos literais banhos de sangue que ocorrem de vez em vez no filme, Espontânea impacta com suas escolhas visuais, seu grafismo acertado e sem repetições ou histeria, a luz e os movimentos conseguidos por Aaron Morton (de A Morte do Demônio) que elaboram seu campo cênico e a decupagem incomum para produções do gênero. Onde geralmente só se entrega resultado, aqui se projeta invenção formal e estilística, sem deixar que esse cuidado arranhe sua verdade narrativa, e a conexão estabelecida entre roteiro e elenco. 

Por trás da profusão de cenas hilárias, de diálogos espirituosos muito eficazes, Espontânea amarra numa corrente de grandes momentos a falta de rumo que acompanha esse período da vida, os medos que se transformam em graves fobias sociais, e paralelo a isso ao instinto de sobrevivência que a leveza e a tranquilidade trazem. Poucas vezes recentes um produto tão popular foi tratado com tanta dedicação por um roteiro cheio de possibilidades de reflexão, e uma direção tão empenhada em apresentar mais do que em apenas filmar a história. Na montagem sofisticada que apresenta vários lados de observação de uma história, a estreia de Duffield não é apenas promissora, como o posiciona com propriedade para a lista de superlativos da temporada. 

Um grande momento
“Por favor, não exploda!”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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