Crítica | Festival

Está Tudo Bem

Porta-retrato próximo demais

(Tout s'est bien passé, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: François Ozon
  • Roteiro: François Ozon, Philippe Piazzo
  • Elenco: Sophie Marceau, André Dussollier, Géraldine Pailhas, Charlotte Rampling, Éric Caravaca, Hanna Schygulla, Grégory Gadebois, Judith Magre
  • Duração: 113 minutos

Um grande filme pode ser construído através da solidez de sua execução, do empenho maciço de sua produção, da sobriedade e da verdade capitaneada pela sua realização. O novo filme de François Ozon, Está Tudo Bem, em cartaz no Festival Varilux e indicado a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, é o exemplo preciso de que contenção não rima com chateação. Através de uma narrativa firme e bem centralizada, acompanhamos os sutis descaminhos de uma família já há muito despedaçada diante de muitos lados da finitude, sua irrevogabilidade e o que fazer quando já não há mais nada a fazer. O resultado é duro, por vezes árido na sua falta de concessão, mas nunca desprovido de humanidade.

O mais prolífico cineasta francês da atualidade, nenhum ano passa sem Ozon, que sempre tem dois projetos engatilhados. Essa adaptação de um romance da personagem principal do filme, aqui vivida por uma Sophie Marceau especial, é sua produção regular do ano, muito superior ao anterior Verão de 85, também menos afetado e forçado, o oposto desses elementos. Na verdade sempre trabalhando entre essas duas chaves, a afetação muitas vezes histriônica e o naturalismo radical (e, às vezes, uma certa intersecção) , essa é a vez em que ele se deixa levar por um olhar menos histérico para abraçar um núcleo familiar de classe média alta lidando com o enfrentamento inevitável do que sempre pode ficar para depois.

Está Tudo Bem
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Filme sobre esqueletos familiares que já não estão no armário há muito tempo, o que Ozon faz é investigar aqueles segredos já revelados com muito cuidado e muita delicadeza, sem excesso de exposição. Na verdade, esse é um daqueles casos onde tudo está exposto aos personagens e o público chega a um quadro já revelado. Nesses casos, é comum que o roteiro recoloque em cima da mesa coisas já compreendidas por todos, causando uma ranhura no contexto narrativo; aqui não ocorre isso, porque Está Tudo Bem obriga o espectador a correr atrás dos campos lacunares de entendimento, que vão sendo preenchidos com parcimônia. Essa é a maior qualidade que uma produção que se pretende naturalista pode ter.

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Essa maneira metódica, quase protocolar, de montar seu espetáculo e criar uma conexão fácil com o público, é uma estratégia que funciona por um lado (ou com uma fatia), mas encontrará resistência em outro tanto, já que o filme ameniza seus conflitos até a sua quase inexistência. É tudo tratado com tanto cuidado que o filme se coloca numa linha tênue observacional, podendo aplacar seu impacto na totalidade. Seus méritos de suavizar o detalhamento de seus eventos, incluindo os já encenados no extra campo narrativo, acabam por dar um tom único à produção, que não está interessado em azeitar as relações, mas sim tratá-las de maneira corriqueira, fazendo dessa frugalidade sua matéria prima.

Está Tudo Bem
Carole Bethuel/Mandarin Films/FOZ

O que realça de verdade o sabor de Está Tudo Bem é a maneira impecável como Ozon organiza os afetos através da direção de atores. A relação entre Sophie Marceau e Geraldine Pailhas, duas irmãs na tela com diferenças claras de tratamento dados pelos pais, é tão perceptível, tão cheio de camadas, que enriquece toda a produção. Ainda que falte aprofundamento a personagem de Pailhas, a relação entre as irmãs é verdadeira e tocante, e também reflete todos os outros cuidados do filme, como a complexa rede que envolve seus pais e Gérard, um personagem-chave, ambíguo e que traduz muitas das idiossincrasias que a produção apresenta. O marido de Emmanuele é outro tipo que carecia de mais lados, porque o pouco mostrado já é muito promissor em sua passividade e ausência de controle.

Mas nada seria alcançado de maneira adequada se André Dussolier não estivesse tão perfeito em cena. Veteraníssimo e grande ator que é, ele tem o difícil papel de mostrar toda a fragilidade e tridimensionalidade de um ser humano com prováveis muitos defeitos, mas que a relação complexa com as filhas não deixa de mostrar também seus predicados. Dussolier funciona como uma viga de sustentação de um filme que precisa de seus tipos humanos para a identificação fazer a ponte que o tom quase documental interrompe em seu naturalismo. Juntos, eles elevam um material de qualidade que estava mais plácido, e que através de seu elenco alcança lugares intangíveis.

Um grande momento
O concerto do neto

[Festival Varilux de Cinema Francês 2021]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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