Crítica | Festival

Paris, 13º Distrito

A nova onda marginal

(Les Olympiades, Paris 13e, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jacques Audiard
  • Roteiro: Céline Sciamma, Léa Mysius, Jacques Audiard
  • Elenco: Lucie Zhang, Makita Samba, Noémie Merlant, Jehnny Beth, Camille Léon-Fucien, Océane Cairaty, Anaïde Rozam, Pol White, Geneviève Doang
  • Duração: 105 minutos

Jacques Audiard nunca escondeu o apreço que seu cinema tem por desdobrar minorias, efetivamente étnicas e geográficas. Essa é uma ideia geral estabelecida pelas narrativas que ele se encanta, as texturas que são de seu interesse, a direção do olhar na qual ele aplica determinação. Com escolhas que geralmente ressaltam a violência que gere esses ambientes, ainda que fale de amor muitas vezes (como em Ferrugem e Osso e De Tanto Bater, Meu Coração Parou), neste novo Paris, 13º Distrito uma dose cavalar de ternura assola as relações humanas estabelecidas em primeiro plano. É a concretização de um novo lugar alavancado pelos minoritários, que pedem passagem para além das histórias de sacrifícios, perdas e falências sociais.

Não tendo mais o que provar, inclusive já tendo ganho uma Palma de Ouro (discutível, para seu Dheepan), Audiard se abre para investigações cuja urgência é deflagrada pelas cirandas emocionais causadas pelo coração, que não nos obedece, não nos ouve e muitas vezes nos faz sofrer independente da nossa aceitação dos fatos. Sem livrar-se de explosões que culminam em sofrimento eventual, toda sua estratégia narrativa dessa vez está atrelada ao tamanho do envolvimento emocional que nos permitimos nos dias de hoje. Um quadro onde a violência não se explicita de maneira a produzir fatalidade, mas que está muito mais próxima de um entendimento do naturalismo que seu cinema, muitas vezes costurado aos dogmas de gênero, costuma atribuir-se.

Paris, 16º Distrito
Shanna Besson

Fotografado em impressionante preto e branco, essa decisão promulga avançar na direção de muitos alvos. Tira a burguesia de cena ao filmar figuras suburbanas geográficas e emocionais, centra sua predileção pela periferia também do campo cinematográfico, aproxima o espectador do mundano que povoa aquelas seres descentralizados, e presta uma forma de tributo a uma fatia que o cinema francês difundiu na História, a nouvelle vague. Não passa também de uma forma de ironizar exatamente esse mesmo movimento, protagonizado tradicionalmente por brancos burgueses entediados e despreocupados. Em Paris, 13º Distrito, as paixões que impulsionam os personagens dividem igual motivação com a falta de perspectiva social, a corpos longe do padrão estético vigente, e etnias que se entrecruzam na diversidade.

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É ofertado em seu caldeirão emocional uma releitura 2021 do que foi pensado no passado por François Truffaut, Jean-Luc Godard, Agnes Varda e congêneres. Seus tipos amam, desamam, voltam a amar, trocam de amor, debatem sobre esse mesmo amor, mas sem perder de vista que a vida corre em um trilho diferenciado para a maioria das pessoas no mundo. É preciso amar, mas não se paga aluguel com amor; o filme não deixa seus personagens se livrarem dos problemas factuais que a vida moderna lega ao humano medíocre. Quando se é mais um na multidão, você até eventualmente encontrará e desencontrará sua metade, mas por entre as emoções, tem o fato de que emprego não é um bem emocional, e sem um lugar na sociedade de maneira produtiva, o amor é só uma quimera para um happy end hollywoodiano.

Paris, 16º Distrito
Shanna Besson

O roteiro de Paris, 13º Distrito, co-escrito pela cada vez melhor Céline Sciamma, é mais que requintado. Ele constrói um trio de protagonistas crível, coerente e tão bem embasado que o espectador, em determinado momento, começa a antever as ações dos mesmos. Sem ter nada a ver com exposição de clichês, isso se dá porque o filme tem exímia propriedade a respeito de seus personagens, que literalmente ganham vida própria em determinado momento. Emilie, Camille e Nora são compostos por motivações tão verdadeiras, suas impressões são tão decalcadas de uma leitura quase documental de seus atores e de como eles se apropriam de um olhar naturalista para aquelas vidinhas, que não demora para nos afeiçoar inclusive a seus defeitos, e perceber a crueza verdadeira de suas ações.

Montado pela experiente Leonor Welfling, o filme se vale de um ritmo impecável para contar uma história cuja simplicidade não esconde muitas camadas de brilhantismo, através de uma interpretação muito peculiar de um formato que nunca parece ser esquecido na França. Cineastas como Philippe Garrel e Emmanuel Mouret estão em constante movimentação para regurgitar novas versões de uma fatia do passado revisitado em gênero; o que Audiard propõe aqui dá um passo a frente. Ao invadir um campo oligárquico de corpos e motivações padrões sociais, ele compreende que o espaço romântico é também um campo de possibilidades para os não-hegemônicos, além de retraduzir um mundo de violências com as cores da solidão e da carência, as trágicas mazelas que também encantaram as periferias no hoje.

Um grande momento
Emilie e Camille no telhado

[Festival Varilux de Cinema Francês 2021]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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