Excess Will Save Us começa pequeno, quase sem anunciar nada. Um retorno à vila, um alerta de ataque terrorista que não se concretiza, uma rotina que segue. O que se instala é um estado de espera que atravessa tudo. Ele aparece nas conversas atravessadas, nos olhares que se prolongam um pouco além do necessário, na forma como cada gesto passa a carregar um excesso de significado. Aos poucos, o espaço deixa de funcionar apenas como cenário e passa a absorver essa tensão difusa, como se todos ali compartilhassem uma sensação comum que nunca ganha forma explícita.
Morgane Dziurla-Petit filma a família, os vizinhos, o cotidiano mais reconhecível possível, e justamente por isso consegue deslocá-lo. A rotina permanece visível, mas sofre pequenos desvios que alteram sua textura. O banal passa a produzir estranhamento sem perder o vínculo com o real, e o filme cresce nesse ponto de fricção. Existe uma precisão muito particular na maneira como a diretora constrói esse movimento, evitando gestos que organizem demais o que está em cena. O olhar permanece atento ao que escapa, ao que não se fecha, permitindo que o filme se desenvolva dentro dessa instabilidade.
A relação com o pai atravessa tudo. Ela surge em conversas simples, em pequenas tensões, em silêncios que carregam mais do que explicações dariam conta. O vínculo se constrói nesse espaço irregular, onde o afeto convive com dificuldades de comunicação. Há momentos em que Excess Will Save Us se aproxima desse centro mais íntimo, como se o gesto de filmar participasse desse processo de aproximação. Ainda assim, as cenas mantêm uma abertura que impede definições rígidas dessa relação.
O humor aparece em pontos inesperados. Ele atua como um elemento que desloca o olhar e intensifica a percepção do que está em jogo. As situações caminham para o absurdo e mantêm um contato constante com o real, criando uma tensão contínua entre reconhecimento e estranhamento. Aos poucos, o que poderia funcionar como um retrato excêntrico de uma comunidade ganha outra dimensão, atravessada por uma observação atenta das formas como as pessoas constroem sentido coletivamente.
Existe um acúmulo que se torna visível com o avanço do filme. Um mal-estar discreto, uma expectativa que não encontra um objeto claro, uma necessidade de preencher o vazio com alguma forma de narrativa. Quando não há ameaça concreta, ela passa a ser construída, repetida, compartilhada até ganhar consistência. Dziurla-Petit observa esse processo com atenção, sem transformar isso em explicação direta. O interesse está em como essa realidade se forma, em como ela se sustenta mesmo sem um ponto fixo.
No fim, Excess Will Save Us se mantém nesse estado de instabilidade. O filme não busca organizar o que propõe, nem oferece um fechamento que pacifique o que se acumulou. O riso permanece, já atravessado por uma inquietação persistente. O banal continua reconhecível, mas atravessado por uma camada de absurdo que permanece ativa. É dessa convivência que o filme extrai sua força, deixando uma sensação que continua reverberando depois que a projeção termina.
Um grande momento
A ameaça


