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Family Romance Ltda.

(Family Romance, LLC., EUA, 2019)
Drama
Direção: Werner Herzog
Elenco: Mahiro Tanimoto, Ishii Yuichi
Roteiro: Werner Herzog
Duração: 89 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

A menina que mal se lembra do pai de repente vê um estranho se aproximando no parque, que logo senta ao seu lado. Ele diz que é seu pai e quer retomar contato. Tímida e receosa (com toda razão, afinal é um homem adulto se aproximando de uma jovem de 12 anos) ela hesita, mas acaba se relacionando com aquele que na realidade é um ator chamado Ishii, proprietário de uma empresa de “talentos” chamada Family Romance Ltda.

O que eles comercializam? Amor, afeto e companheirismo na forma de entes queridos. Familiares que desapareceram ou morreram são substituídos por atores que, pesquisando seus trejeitos e biografia, estudando fotos e conversando com pessoas da família, interpretam papéis. Só no Japão um negócio assim vingaria – e vinga, pois a relação que eles têm com laços de família, ao menos sob a câmera de Werner Herzog, o prolífico cineasta alemão, é bem menos apaixonada do que a dos ocidentais e latinos. レンタル家族 é como se chama esse tipo de serviço de aluguel que é ofertado por mais de uma empresa japonesa desde meados dos anos 90, especialmente em ocasiões sociais como casamentos, velórios ou reuniões de negócios.

O que Herzog faz é humanizar as relações que vão se desenvolvendo em um encontro aparentemente comercial, quando os sentimentos da jovem Mahiro pelo pai há muito tempo sumido começam a aflorar. Investigando com distanciamento as flores de cerejeira florescendo ao passo em que a menina se apega mais a Ishii, o cineasta vai se utilizando de um dispositivo onde ficcionaliza os encontros por meio de situações inusitadas como a luta dos samurais no parque ou o robô recepcionista no hotel que filosofa e deixa Ishii se sentindo mais culpado.

Também chamado gratuitamente de “docudrama” por se basear numa história real usando artifícios ficcionais Family Romance Ltda. traz um hibridismo típico da própria cultura nipônica ao mesclar a tecnologia e uma certa artificialidade a uma crise de consciência. A câmera em drone mergulha pela paisagem aérea da cidade japonesa sempre que o reencontro de Ishii com Mahiro se aproxima. É como se fosse a costura amorosa que intercala uma história inusitada, até o momento em que a farsa, o contrato comercial firmado entre Ishii e a mãe de Mahiro o leva ao limite existencial e ético.

O filme acaba mas permanece na cabeça. É o de número 73 na filmografia de Herzog ao mesmo tempo que aponta uma espécie de retomada ao método imagético de construção narrativa lá dos anos 70, trazendo similaridades com títulos como Os Anões Nascem Pequenos e Stroszek.

Um Grande Momento:
Todas as sequências entre imagens, onde o drone localiza espacialmente o falso pai e a filha, que se (re)conectam.

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[43ª Mostra de São Paulo]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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