Como contar a história de uma vida que nunca se revelou de maneira inteiramente organizada? Em Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha, de Lírio Ferreira e Karen Harley, a escolha por narrar a trajetória do inquieto cineasta também não poderia ser padrão. E não é. Ela aparece em fragmentos, entecortada e completada por arquivos, relatos e pelas marcas de uma obra que se apresentava fora do comum, em desvio.
Autor de obras como Ladrões de Cinema, O Mágico e o Delegado, Uma Negra Chamada Tereza e o incontornável Viagem ao Fim do Mundo, Coni Campos foi alguém que nunca se acomodou em um lugar fixo no cinema brasileiro. Seus filmes são a prova dessa inquietação e da recusa por formas estáveis. O documentário escolhe, então, acompanhar o movimento daquela existência. Sem a rigidez de uma linha que organize começo, meio e fim, o que está em tela é uma aproximação feita de pedaços, onde cada material revela um novo gesto, uma nova tentativa, uma nova ruptura.
Ferreira e Harley acertam ao adotar a fragmentação para buscar a aproximação do objeto documentado. Mais do que apenas ilustrar, as imagens de arquivo surgem como matéria viva, muitas vezes em atrito com os depoimentos, tomados de pessoas que experimentaram suas obras, umas por dentro, outras por fora. Se estabelece assim uma disputa constante entre memória e invenção, entre o que se lembra e o que se reconfigura ao narrar. E Cada Um Vive Como Quer se aproveita da tensão provocada, dando espaço para a incerteza, a identificação e o estranhamento, mantendo-a como parte do próprio retrato.
Embora haja algum desequilíbrio de ritmo, o documentário é consistente em suas escolhas e não só apresenta Coni Campos, como o entende como um artista que viveu – e sobrevive – à margem das estruturas mais consolidadas, sem que isso se transforme em posição confortável. Há um embate com o sistema, com as possibilidades de produção, com a própria ideia de conexão com a arte e a vida. Cada filme do realizador chega a essa questão, e a um desejo de fazer que nem sempre encontra espaço para se realizar plenamente.
Assim como seu subtítulo, Cada Um Vive Como Sonha não quer deteminar exatamente quem é Coni Campos. É uma obra que está mais interessada em apontar para um modo de existência que se reflete diretamente na obra. O sonho, no caso, aparece como força de criação, mas também como limite, como algo que nem sempre se sustenta diante das condições concretas.
Entre o possível e o improvável, o documentário consegue alcançar a oscilação, se convertendo no não-estilo daquele sobre quem fala. Ao reunir materiais diversos e permitir que eles convivam sem hierarquia rígida, faz um retrato que deixa pistas e sensações, sem nunca revelar completamente. Cada um Vive Como Sonha cumpre o seu papel, fazendo com que Fernando Coni Campos surja como presença em constante movimento, como alguém que fez do cinema um espaço de tentativa, mesmo quando tudo ao redor apontava para a interrupção.
Um grande momento
Pitanga fala Coni Campos