Mario

A outra opção

O aspecto mais interessante de Mario, documentário dos irmãos Kunhardt, é que ele vai além da biografia política, pesquisando Mario Cuomo dentro dos Estados Unidos de Ronald Reagan. Não se trata apenas de contar a trajetória de um governador democrata de Nova York, mas de recuperar uma visão que caminhava na direção oposta ao imaginário conservador que dominava os anos 1980.

No eterno ciclo da História, Cuomo era um outsider. Filho de imigrantes italianos, vindo de uma família trabalhadora do Queens, não trazia a herança tradicional das elites políticas do país. Contraditoriamente, sua ascensão acontece quando os Estados Unidos estão fascinados pela retórica de Reagan, pela ideia do empreendedor que vence sozinho, pelo mito da prosperidade individual como medida de valor social.

Com um formato tradicional, que mescla resgate de arquivos com depoimentos, inclusive de familiares, o filme traz fatos que dialogam com o presente. Os Estados Unidos – e boa parte do mundo – retratados ali se parecem com algo que hoje conhecemos bem e o reaganismo ajudou a consolidar: a lógica do individualismo como virtude moral, a redução do papel do Estado e a celebração de uma identidade nacional construída em torno da autossuficiência. É uma genealogia que desemboca, quarenta anos depois, na sedução exercida pela promessa de restauração de uma “grandeza perdida” ou o Make America Great Again, demagogia nociva criada pelo então presidente e difundida hoje por Donald Trump.

É aí que Mario Cuomo se torna uma figura quase anacrônica para o espectador contemporâneo. Sua política nasce da comunidade e seu discurso está ancorado na responsabilidade coletiva. Quando ele falava dos trabalhadores, dos imigrantes ou dos mais vulneráveis, não os apresentava como indivíduos isolados tentando vencer uma corrida, mas como partes de um tecido social que precisa permanecer unido. Sua famosa crítica ao mito fundador dos EUA,  o “city upon a hill”, propunha outra imagem: a de um país dividido entre privilégios e exclusões, entre aqueles que participam do sonho americano e aqueles que observam esse sonho de fora.

Nesse sentido e mesmo com as limitações democraticas do que retrata, Mario recupera uma tradição democrata que parece cada vez mais distante da política contemporânea. A crença de que o governo pode ser uma ferramenta de compaixão, proteção e equilíbrio social atravessa todo o retrato construído pelo documentário. São elementos que estão por todo o filme e funcionam como uma espécie de manifesto político diante de um presente marcado pela polarização e pela lógica da competição permanente.

Mario encontra o momento histórico perfeito em 2026. Em um país ainda tentando compreender o legado de Trump e os desdobramentos culturais do MAGA, o documentário olha para trás para encontrar uma figura que representava outra possibilidade de liderança. Uma liderança baseada na construção de um destino compartilhado. Entre Reagan e Cuomo estavam duas ideias de um país e Mario sugere que essa disputa nunca terminou. Ela apenas mudou de tempo.

Um grande momento
O discurso na Convenção Democrata

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