Crítica | Festival

Os Feiticeiros Inocentes

(Niewinni czarodzieje, POL, 1960)
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Andrzej Wajda
  • Roteiro: Jerzy Andrzejewski, Jerzy Skolimowski
  • Elenco: Tadeusz Lomnicki, Krystyna Stypulkowska, Wanda Koczeska, Kalina Jedrusik, Teresa Szmigielówna, Zbigniew Cybulski, Roman Polanski
  • Duração: 83 minutos

Poucos filmes de Andrzej Wajda estão tão interessados na juventude quanto Os Feiticeiros Inocentes. Depois longas falando de guerra, da ocupação nazista e dos traumas da história polonesa, o diretor olha para o cotidiano de uma geração. Os fantasmas, obviamente, continuam presentes, mas agora frequentam clubes de jazz e passam a madrugada tentando esconder seus sentimentos atrás de poses de indiferença.

Bazyli é médico durante o dia e baterista de jazz à noite. Ao conhecer uma jovem misteriosa em um clube, inicia um jogo de sedução que dura a noite toda. Com roteiro de Jerzy Andrzejewski e Jerzy Skolimowski, a trama é mínima. O encontro entre os dois serve como ponto de partida para uma sucessão de conversas, provocações, blefes emocionais e performances de autoconstrução. Ambos parecem determinados a não revelar quem realmente são. O desejo existe, mas circula protegido por máscaras.

Os Feiticeiros Inocentes não tem muito pudor em se assumir como experimentação. Wadja faz a obra de laboratório, abandonando a solenidade de seus filmes anteriores e se aproximando de uma energia que naquele momento começava a tomar conta do cinema europeu. O diálogo com a Nouvelle Vague é evidente, mas chega contaminado por uma realidade polonesa muito específica, marcada pelo degelo político do final dos anos 1950 e pelo surgimento de uma juventude que buscava formas de viver fora dos modelos impostos pelo Estado.

As experimentações estão por toda parte. Na estrutura aparentemente dispersa, nos diálogos que se perdem em desvios inesperados, na importância aos gestos cotidianos e, principalmente, na tentativa de capturar uma geração em movimento. O jazz de Krzysztof Komeda tem um papel importante nesse processo, com seu ritmo atravessando a encenação. É uma trilha que orienta os encontros e ajuda a criar uma atmosfera de liberdade difícil de representar naquele contexto político.

A modernidade do filme também impressiona. Muitos dos conflitos apresentados continuam reconhecíveis décadas depois. Bazyli e Pelagia constroem versões de si mesmos para consumo alheio. Testam limites, encenam desapego, cultivam ironias e evitam qualquer demonstração excessiva de vulnerabilidade. A longa noite que compartilham se transforma em uma disputa entre personagens que desejam intimidade, mas tratam a sinceridade como um risco.

Nem toda experiência funciona com a mesma intensidade. Em alguns momentos, o filme parece mais apaixonado pelas possibilidades formais do que pelos personagens. Ainda assim, a vontade de testar caminhos é curiosa. Os Feiticeiros Inocentes registra um momento raro em que um cineasta abandona certezas e explora novas linguagens.

Mais de sessenta anos depois, permanece a impressão de um filme atravessado pela curiosidade. Curiosidade sobre o comportamento dos jovens, os limites da liberdade, o jazz, o amor e o próprio cinema. Talvez seja por isso que sua energia continue tão viva. Wajda filma uma geração tentando descobrir quem é. Ao mesmo tempo, parece descobrir novas possibilidades para sua própria arte.

Um grande momento
A fuga do clube

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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