- Gênero: Animação
- Direção: Orian Yani Barki, Meriem Bennani
- Roteiro: Orian Yani Barki, Meriem Bennani, Ayla Mrabet, Antonio Santini
- Duração: 83 minutos
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Bouchra quer fazer um filme. A partir dessa premissa aparentemente simples, Meriem Bennani e Orian Barki constroem uma obra sobre criação, identidade e pertencimento. A protagonista, uma cineasta marroquina vivendo em Nova York, enfrenta um bloqueio criativo enquanto tenta lidar com a relação complexa com a mãe em Casablanca e com os conflitos produzidos por uma vida dividida entre diferentes culturas.
O aspecto mais interessante do filme talvez esteja na maneira como ele transforma essa busca pessoal em linguagem. Bouchra escreve um filme sobre si mesma ao mesmo tempo em que vive situações que parecem alimentar essa própria escrita. Memórias, telefonemas, desejos e dúvidas passam a circular entre vida e ficção sem que as fronteiras entre uma e outra estejam muito claras. A narrativa avança como se estivesse descobrindo seu próprio caminho enquanto acontece, e acompanhando uma personagem que tenta compreender a si mesma através do ato de criar.
A animação, bastante interessante em suas cores e texturas, amplia ainda mais essa liberdade. Todos os personagens aparecem como animais antropomórficos, mas os espaços de Nova York e Casablanca mantêm uma “naturalidade”. O resultado produz um efeito curioso, pois quanto mais o filme se afasta do realismo na representação dos corpos, mais próximo parece chegar de experiências emocionais difíceis de traduzir. A forma permite que sentimentos contraditórios coexistam sem a necessidade de serem organizados em respostas definitivas.
No centro de tudo está a relação entre mãe e filha. As conversas entre as duas carregam afeto, proximidade e também silêncios acumulados ao longo dos anos. O filme evita transformar essa dinâmica em um simples conflito entre tradição e modernidade ou em crise intergeracional. O que aparece é algo muito mais complexo: duas mulheres tentando encontrar uma linguagem comum apesar das distâncias geográficas, culturais e emocionais que as separam.
Existe também uma questão de pertencimento. Bouchra vive entre Nova York e Casablanca, entre diferentes idiomas, entre a experiência queer e as expectativas familiares, entre a vida que construiu e a vida da qual se afastou. O filme compreende que essas identidades não precisam ser reconciliadas. As contradições são evidentes, e é justamente nelas que a personagem se encontra.
Ao acompanhar uma artista tentando transformar a própria experiência em cinema, Bouchra se torna também uma reflexão sobre o que significa contar histórias. Criar, aqui, não surge como um exercício de organizar certezas, mas como uma tentativa de habitar dúvidas. Entre lembranças, encontros e páginas em branco, o filme tem uma forma delicada de mostrar que algumas respostas estão entremeadas ao próprio processo de busca.
Um grande momento
Revival vivido e revival encenado


