- Gênero: Ficção Científica
- Direção: Tiago Melo
- Roteiro: Amanda Guimarães, Anna Carolina Francisco, Gabriel Domingues, Jeronimo Lemos
- Elenco: Rejane Faria, Valmir Do Côco, Tânia Maria, Spencer Callaham, Severino Dadá
- Duração: 97 minutos
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Yellow Cake quer fazer uma ficção científica no sertão nordestino, mais especificamente em Picuí, cidade do interior da Paraíba. Filme de abertura da 15ª edição do Olhar de Cinema, o novo longa de Tiago Melo se passa em um futuro indeterminado, onde a dengue transmitida pelo Aedes aegypti transformou-se em uma pandemia mortal global, e o urânio da pequena cidade seria uma maneira de controlá-lo. Um projeto nuclear internacional, com o mesmo nome do filme, é criado para exterminar a ameaça do mosquito.
Quem chefia o grupo de pesquisa, formado por mais três gringos, é a brasileira Rúbia, vivida por Rejane Farias. Já a comunidade de Picuí é representada por vários outros personagens, com destaque para a mais antiga moradora Dona Rita, papel interpretado por Tânia Maria. As duas trazem um subtexto interessante, onde a natureza e a vontade de controlá-la se contrapõem. Já no campo científico, a comunicação em outra língua e uma guerra de poderes e posturas levantam uma outra discussão, trazendo à tona a submissão à presença (e existência) estrangeira, estado permanente que acomete boa parte dos brasileiros.
Esteticamente, com toda a beleza natural do local e a pompa e circunstância que um scope pode dar a um filme, o sertão surge agigantado, mostrando a sua potência, e sufocando as pessoas com opções de plano arriscadas. Há momentos criativos que se destacam com a valorização das cores e o desapego de um cinema mais convencional, mas eles se perdem em uma narrativa mais fragmentada do que deveria. É como se a fome de explorar fosse maior do que a atenção ao que quer dizer.
Não que a história não esteja lá, mas ela chega sem a força que poderia ter. Fora a protagonista, tanto os personagens locais quanto os forasteiros não têm o tempo necessário para se estabelecer e despertar empatia em quem assiste ao filme. Com uma montagem apressada, é como se os eventos se conectassem sem trazer com eles a gravidade do enredo, o peso que têm em um microuniverso que poderia, tranquilamente, se traduzir numa macro realidade.
Embora se apreenda o que está por trás de tudo, a desconexão faz com que a segunda metade de Yellow Cake chegue a uma espécie de limbo, entre a curiosidade e o desinteresse. Há todo um trabalho técnico que não pode ser ignorado, em especial quando se pensa no gênero fantástico ou em uma ficção-científica que traz o Aedes aegypti para ocupar o lugar do monstro. O longa encontra, de fato, imagens e poéticas curiosas em sua apropriação. Em brilho, larvas e desenho sonoro, cumpre bem o seu papel.
Porém, Yellow Cake precisava de mais tempo. Não de duração, mas de tempo dado aos seus personagens e à sua história. Um filme que tem a força da presença de Rejane Farias, por vezes só andando na cena, e o carisma de Tânia Maria; ou que traz temas difíceis, como o complexo de vira-latas e a insignificância do homem diante da natureza, precisa maturar, precisa ter tempo para que suas personas e seus conflitos se estabeleçam em tela e dentro do espectador.
Um grande momento
O delírio de Rúbia


