A lenda da ilha Matininó, habitada apenas por mulheres, atravessou séculos da história caribenha, reaparecendo em relatos coloniais, narrativas populares e reconstruções históricas. Em seu documentário, Gabriela Díaz Arp não tenta descobrir se essa terra realmente existiu. O que a interessa é outra questão: por que mulheres continuam precisando inventar lugares onde possam viver livres da violência masculina? A partir dessa pergunta, o filme constrói uma reflexão delicada e poderosa sobre identidade, memória e sobrevivência.
As histórias compartilhadas pelas mulheres da família Villanueva são relatos de agressões, relacionamentos abusivos e medos transmitidos de geração em geração; experiências que revelam como a violência de gênero se instala no cotidiano e passa a fazer parte da própria estrutura familiar. O feminicídio aparece como uma manifestação extrema de um sistema mais amplo, sustentado por silêncios, naturalizações e desigualdades que atravessam décadas. O documentário dá voz a essas mulheres, permitindo que suas memórias ocupem espaço sem transformá-las em exemplos ou estatísticas.
Ao mesmo tempo, o filme recusa permanecer apenas neste registro. Díaz Arp incorpora elementos performáticos, encenações e imagens ritualísticas que aproximam suas personagens da lenda que dá nome à obra e de tantas outras. O resultado desloca constantemente o olhar do espectador. As mulheres que contam suas dores também aparecem como figuras míticas, ocupando espaços simbólicos que parecem existir entre o sonho e a lembrança. A fantasia surge como ferramenta narrativa, mas também como possibilidade política.
A escolha transforma Matininó em um filme profundamente interessado no poder da representação. Não basta registrar uma experiência, é preciso disputar a forma como ela será vista. Durante muito tempo, mulheres latino-americanas foram representadas a partir da violência que sofriam. Aqui, elas participam da construção de imagens que lhes devolvem complexidade, força e permanência. A câmera deixa de funcionar apenas como instrumento de observação para se tornar um espaço de reinvenção.
Existe também uma camada importante relacionada à identidade porto-riquenha. Ao recuperar lendas locais e mitos universais e colocá-los em diálogo com histórias contemporâneas, o documentário cria conexões entre memória coletiva e experiência individual. O mito deixa de pertencer ao passado para atuar sobre o presente e cada relato pessoal parece ampliar a própria lenda, enquanto a lenda oferece novas formas de compreender essas vidas. Entre história oral, tradição popular e testemunho, o filme constrói um arquivo vivo de mulheres que se recusam a desaparecer.
O grande mérito de Matininó está em compreender que imaginar é também um ato de resistência. As protagonistas carregam as marcas deixadas pela violência vivida ou testemunada, mas o documentário escolhe concentrar sua atenção naquilo que permanece apesar dela. Ao ocupar a tela como narradoras, personagens e figuras fantásticas, essas mulheres afirmam sua presença. A lenda que atravessa o filme acaba funcionando como uma promessa: enquanto houver alguém para contar essas histórias, elas continuarão existindo.
Um grande momento
A faca


