Crítica | Outras metragens

DISC

O dia seguinte

(DISC, EUA, 202)
  • Gênero: Ficção
  • Direção: Blake Rice
  • Roteiro: Victoria Ratermanis, Blake Rice
  • Elenco: Jim Cummings, Victoria Ratermanis, Dawnnie Mercado
  • Duração: 14 minutos

Muitas comédias românticas se concretizam quando duas pessoas finalmente vão para a cama juntas. DISC começa na manhã seguinte. Alex acorda em um quarto de hotel depois de uma transa casual durante uma conferência e descobre que o disco menstrual que utilizava ficou preso. O que deveria ser uma despedida rápida se transforma em uma convivência forçada, constrangedora e inesperadamente íntima. A partir dessa premissa simples e bastante incomum, Blake Winston Rice constrói um curta que encontra no constrangimento compartilhado seu humor.

A situação é absurda, mas o filme demonstra inteligência ao não transformá-la apenas em uma sequência de humilhações. Não que elas não estejam ali. Cada nova tentativa de resolver o problema aumenta a exposição física e emocional dos personagens, aproximando duas pessoas que, em circunstâncias normais, jamais voltariam a se encontrar. O riso nasce da maneira como ambos tentam lidar com ele, equilibrando vergonha, gentileza e desespero.

A maneira como o curta lida com a intimidade também é interessante. O sexo, que costuma funcionar como ponto de chegada em tantas histórias românticas, aqui já aconteceu antes mesmo de a narrativa começar. O que interessa é tudo aquilo que vem depois, quando desaparece a sedução e os personagens passam a existir diante um do outro em uma condição mais vulnerável. Entre conversas constrangedoras, tentativas fracassadas e soluções improvisadas, DISC vai revelando afinidades que dificilmente surgiriam em outras circunstâncias.

Blake Winston Rice compreende que o corpo não é apenas fonte de desejo, mas também de desconfortos, limitações e imprevistos, e o curta trata disso com naturalidade, sem transformar a experiência feminina em tabu nem em objeto de escárnio. A escolha permite que a situação mantenha sua força cômica sem perder a humanidade dos personagens.

Boa parte do equilíbrio vem das atuações de Victoria Ratermanis e Jim Cummings. Ela interpreta Alex com uma combinação precisa de vulnerabilidade e firmeza, enquanto Cummings explora sua conhecida habilidade para personagens socialmente desajeitados sem reduzir Carey a uma caricatura. A química entre os dois sustenta o filme e faz com que o espectador permaneça investido em uma situação que poderia facilmente se esgotar na própria premissa.

DISC encontra espaço para falar sobre vergonha, sexualidade e intimidade sem abrir mão da leveza, entendendo que poucas coisas aproximam tanto duas pessoas quanto a necessidade de enfrentar juntas uma situação impossível. Entre pânico, constrangimento e algumas tentativas desastrosas de solução, surge uma conexão genuína, construída justamente quando já não resta espaço para qualquer tipo de pose.

Um grande momento
Batem na porta

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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