Crítica | Festival

Corações Desertos

Sem condenação

(Desert Hearts, EUA, 1985)
  • Gênero: Romance
  • Direção: Donna Deitch
  • Roteiro: Natalie Cooper
  • Elenco: Helen Shaver, Patricia Charbonneau, Audra Lindley, Andra Akers, Gwen Welles, Dean Butler, Katie La Bourdette
  • Duração: 91 minutos

Em 1985, encontrar um filme que contasse a história de amor entre duas mulheres era raro. Com Corações Desertos, Donna Deitch resolve falar exatamente desse tema. Ela parte de uma premissa simples e acompanha a aproximação entre Vivian Bell e Cay Rivers sem transformar o desejo entre elas em culpa, punição ou tragédia. Parece pouco, mas naquele momento, não era.

Adaptado do romance Desert of the Heart, de Jane Rule e com roteiro de Natalie Cooper, o filme acompanha Vivian, professora universitária que chega a Reno para finalizar o seu divórcio. A espera burocrática exigida pela legislação local abre espaço para um encontro inesperado com Cay, uma jovem que preza pela liberdade de suas escolhas e vive segundo regras muito diferentes. O romance que surge entre as duas vai dominando a narrativa e leva a um processo de descoberta afetiva que, mesmo décadas depois de seu lançamento, mantém a sua força.

Hoje, a construção formal do filme revela algumas fragilidades. Deitch demonstra sensibilidade na direção das atrizes e encontra momentos de intimidade genuína entre suas personagens, mas a encenação nem sempre alcança a mesma consistência. Há sequências que parecem excessivamente presas aos códigos do melodrama romântico de sua época e outras que sugerem caminhos mais interessantes do que aqueles desenvolvidos pelo filme. Surge, por vezes, uma sensação de hesitação, como Corações Desertos ainda estivesse procurando sua forma definitiva.

Essa irregularidade, porém, não impede que a história contada permaneça interessante. O relacionamento entre as duas mulheres se desenvolve em aproximações graduais, silêncios, olhares e pequenos gestos cheios de significado. Existe uma delicadeza na maneira como o filme observa a transformação de Vivian, uma mulher que passa a enxergar possibilidades para sua vida que até então permaneciam fora de seu horizonte.

O tom do filme também é um diferencial. Durante décadas, personagens lésbicas ocuparam no cinema lugares marcados pela repressão, pelo sofrimento ou pela destruição. A diretora oferece outra possibilidade. Longe de um retrato de desvio ou punição, o amor que ela existe como experiência legítima, desejada e capaz de produzir felicidade.

Quase quarenta anos depois, algumas escolhas narrativas denunciam seu tempo e a direção nem sempre acompanha a força de seu tema. Ainda assim, o filme preserva um lugar singular na história do cinema por sua capacidade de imaginar um futuro para personagens que durante muito tempo encontraram nas telas apenas limites e condenações. Talvez seja justamente por isso que Corações Desertos siga relevante. Não porque tenha reinventado a forma cinematográfica, mas porque ampliou o horizonte das histórias que podiam ser contadas.

Um grande momento
O primeiro beijo

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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