Existe uma arqueologia afetiva em Last Minute que funciona bem. Michael Cusumano volta a 1989 para contar uma história que hoje não aconteceria do mesmo jeito: um garoto deixa para fazer um trabalho da escola na última hora e sua mãe precisa correr para ajudá-lo. É uma situação familiar para qualquer pessoa que já tenha educado crianças ou adolescentes. O que mudou completamente nesses mais de 30 anos foi o mundo.
A urgência permanece a mesma, mas as soluções… quanta diferença (entendedores entenderão). Não existe internet para responder perguntas em segundos, inteligência artificial para organizar informações ou celular para resolver tudo na palma da mão. Cada obstáculo exige deslocamento, improviso e, principalmente, a ajuda de outras pessoas.
Cusumano transforma essa busca em uma pequena celebração das relações humanas. Aquela mãe está disposta a atravessar a noite para ajudar o filho e as dificuldades que surgem pelo caminho levam a um humor ingênuo, mas ainda divertido. Principalmente porque há algo muito reconhecível nessa relação. Desde a irritação provocada pela procrastinação do menino até o afeto da mãe, que sobrevive mesmo quando a situação parece caminhar para o caos.
Mais interessante é a forma como o curta registra um mundo que desapareceu rapidamente. A lembrança de uma era pré-internet surge através das pequenas dificuldades e das soluções improvisadas que aparecem pelo caminho. A ausência da tecnologia acaba evidenciando o papel que a comunidade, os favores e as relações pessoais tinham na vida cotidiana.
Sem buscar grandes reviravoltas e apesar de uma estética quadradinha e limpinha demais, Last Minute ganha pontos por destacar situações banais da vida. O curta entende que muitas memórias familiares nascem desses pequenos atropelos, daqueles dias em que tudo parece dar errado e que, anos depois, acabam se transformando em memórias gostosas.
Em pouco mais de quinze minutos, Michael Cusumano constrói um retrato afetuoso de uma mãe e um filho, mas também de um outro tempo, quando para resolver um problema era preciso bater na porta de alguém e pedir ajuda.
Um grande momento
O causo do livro


