Crítica | Festival

Mother Future Self

Retiro sem paz

(Mother Future Self, EUA, 2026)
  • Gênero: Drama
  • Direção: Tori Lancaster
  • Roteiro: Tori Lancaster
  • Elenco: Imani Jade, Betsey Brown, Ben Groh, Juliet Brett, Nile Harris, K.J. Holmes, Katherine Laheen, Rose Luardo
  • Duração: 90 minutos

Alguns filmes parecem tão apaixonados por suas próprias excentricidades que acabam dificultando a construção de uma conexão com o espectador. Mother Future Self, estreia de Tori Lancaster na direção de longas, parte de uma premissa promissora ao acompanhar o reencontro de Sofi e Jordan em um retiro experimental de dança no interior do Maine. Entre memórias compartilhadas, ressentimentos antigos e desejos mal resolvidos, a trama quer explorar as transformações provocadas pelo tempo e pelas escolhas da vida adulta.

O problema está na forma como o filme organiza essas ideias. Lancaster aposta em uma combinação de realismo, humor excêntrico, elementos fantásticos e espiritualidade contemporânea, construindo uma experiência que parece constantemente à procura de algo. As diferentes camadas se acumulam sem encontrar um equilíbrio capaz de dar peso dramático às relações ou às questões que o filme pretende discutir.

Até existe uma curiosidade em torno dos temas abordados. O desejo de revisitar decisões passadas, a nostalgia por versões anteriores de si mesma e a dificuldade de aceitar os caminhos tomados oferecem material rico para reflexão. Ainda assim, a narrativa raramente consegue transformar essas inquietações em algo verdadeiramente envolvente. As situações se sucedem, os personagens circulam pelo retiro e os conflitos permanecem em uma espécie de suspensão emocional que dificulta o envolvimento afetivo com a história.

Boa parte dessa distância vem da construção das personagens. Sofi e Jordan carregam conflitos que deveriam sustentar o filme, mas suas relações acabam parecendo mais interessantes em teoria do que na prática. A sensação é a de acompanhar ideias sobre amizade, amadurecimento e identidade, sem que essas ideias encontrem personagens capazes de lhes dar densidade suficiente.

Há momentos de inventividade visual e algumas observações interessantes sobre a busca contemporânea por autoconhecimento. Ainda assim, Mother Future Self termina sem que suas diferentes propostas encontrem uma forma consistente de coexistir. É um filme que confia demais no charme de suas estranhezas e que não supera a sensação de dispersão. Entre viagens temporais, terapias alternativas e reencontros emocionais, sobra a impressão de uma obra cheia de intenções, mas que encontra dificuldades para transformar suas muitas ideias em uma experiência verdadeiramente envolvente.

Um grande momento
A chegada de Jordan

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Assinar
Notificar
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

0 Comentários
Mais novo
Mais antigo Mais votados
Inline Feedbacks
Ver comentário
Botão Voltar ao topo