Crítica | CinemaDestaque

Fervo

Surpresa do além

(Fervo, BRA, 2023)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Felipe Joffily
  • Roteiro: Thiago Gadelha
  • Elenco: Felipe Abib, Georgiana Goés, Renata Gaspar, Rita Von Hunty, Gabriel Godoy, Joana Fomm, Julia Lemmertz, Tonico Pereira, Suely Franco, Bukassa Kabengele, Rosi Campos, Hamilton Vaz Pereira
  • Duração: 95 minutos

Tem alguma coisa errada com o cinema brasileiro – e com a indústria do audiovisual, como um todo – quando Joana Fomm recebe um papel grande em um filme e isso é fora do comum. Quando Fomm, uma das maiores atrizes do país nos anos 1970 e 1980, está sem papel, qualquer papel, há 20 anos, o problema é da indústria, mas o débito é nosso. Começar um texto sobre a estreia essa semana de Fervo com um comentário justo a essa extraordinária atriz é reparação histórica que a própria dá conta de fazer notar quando está em cena, à vontade em papel ingrato e difícil, afinal ela não está interpretando qualquer pessoa. E quando é que iremos ver de novo uma atriz desse naipe, interpretando A Morte (ela mesma!), e dançando ‘K. O.’, da Pabllo Vittar? Se o filme não valesse por mais nada, valeria por essa cena impagável.

Ainda bem que esse não é o único mérito do filme dirigido por Felipe Joffily (de E aí, Comeu?). Mesmo que esteja longe do irretocável e que os defeitos estejam na superfície, principalmente no que diz respeito ao roteiro, Fervo é uma comédia bastante simpática, com ideia de inclusão de orientação sexual, com um trabalho de arte bastante evidente. Existem os valores de produção, que estão bem explícitos, e que elevam esse remake de um original francês. Para o cinema de alcance popular brasileiro, é um diferencial que o filme tenha esses pontos fortes e aposte em uma trilha marcante com diversos sucessos do passado, que vão de Kid Abelha a Corona, passando por Kelly Key e Haddaway. É um pacote convidativo, que coloca o espectador como parte integrante de um projeto de identificação de áudio e visual.

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O roteiro de Thiago Gadelha, infelizmente, tem intenções demais e realizações convictas de menos, parecendo muito mais que o trabalho não recebeu a devida atenção nas revisões. Um dado sobre o protagonista é apresentado como em vias de facto, durante pelo menos a primeira meia hora do filme. Há a construção de uma sexualidade muito mais livre, indo para a expansão do que se poderia compreender, com detalhes a respeito dos pais do mesmo e de como tudo parecia claro para todos, menos para ele. Essa ideia cai por terra da metade para o fim, simplesmente sendo esquecida e fazendo o personagem retomar sua informação padrão. Para um filme que tem três personagens ‘queer’ como co-protagonistas, com um propósito de inclusão que parece genuíno, jogar para baixo do tapete, sem aviso maior depois de toda a construção de uma ideia, vai além da frustração com o que o próprio filme estabelece como base.

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Não é um detalhe bobo, justamente porque é um filme que debate justamente sexualidade, aceitação da mesma (a própria e a alheia), e uma ideia menos restrita das letras do alfabeto LGBTQIAPN+ do que geralmente é aplicado. Quando o filme apresenta um detalhe, o investiga e no final tenta fazer a maluca varrendo o tema pra baixo do tapete, fica a impressão de que tal detalhe era melhor ter sido nem abordado. Já que foi, uma estrutura menos “esquecida” deveria ter sido escolhida como esclarecedora de tal bloco tão grande e relevante da narrativa. Nem a direção ou mesmo o elenco podem ser responsabilizados, por mais que esse tópico deveria ter sido debatido com maior ênfase no decorrer do processo coletivo. O resultado é uma impressão ruim de que o armário pode ser mantido mesmo quando você já saiu dele.

Acho sempre oportuno pontuar quando uma comédia tem ‘timing’, e não necessariamente para a comicidade. É muito mais complexo cortar um material cômico do que dramático, e no Brasil essa dificuldade é amplificada. O trabalho de Marcelo Junqueira em Fervo tem conexão com parte da edição sonora, trazendo ao filme uma unidade não frequente, que não apenas resume o filme ao seu essencial como também constrói a adequada aura de passeio por inúmeros gêneros que o filme brinca. O humor é o elo de ligação, mas o filme não dispensa os elementos do terror e do drama, criando um amálgama que não funciona em todos momentos, mas que se percebe com facilidade. É um dado que eleva o todo, e que melhora o que o roteiro não tinha conseguido fazer. 

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Fervo, com problemas de roteiro que não podem ser levados para debaixo do tapete, deixa também evidentes seus méritos, e o elenco acaba fazendo a diferença no final. Felipe Abib (de Faroeste Caboclo) continua demonstrando que merece mais atenção, mais uma vez excelente; Paulo Vieira demonstra que seu talento parece não ter limites ou fim, funciona em todos os registros que se propõe; Renata Gaspar já deveria ter invadido os cinema mais vezes, aqui seu talento está nas sutilezas; Gabriel Godoy (de Uma Quase Dupla) também demonstra crescimento, e maturidade. No entanto, suas pessoas se sobressaem: a estreia no cinema de Rita Von Hunty, que consegue modular suas duas personas em cena, e o surpreendente Dudu Azevedo (de Qualquer Gato Vira-Lata). O rapaz, constantemente limitado, aqui chama atenção em uma composição cheia de nuances, e consegue se livrar da armadilha que o roteiro joga no seu colo, mantendo inclusive seu personagem intacto. 

Como uma força-tarefa, esse Fervo é uma comédia popular para ser vista por vários segmentos sociais com a possibilidade real de agradar a todos. No fim, é fácil até passar um certo pano para seus problemas, já que não é todo dia que algo com essa vibração chega até nós. Emocionando verdadeiramente com seus encontros, o filme guarda uma pequena grande cena para Bukassa Kabengele (de Pacificado) mais uma vez deixar claro o que se perde ao não escalá-lo. Graças a pessoas como ele, Julia Lemmertz, Tonico Pereira e Suely Franco, Fervo se mostra uma pedida a não ser esquecida nesse início de ano.

Um grande momento

O reencontro entre Diego e Luiz

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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1 Comentário
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Anônimo
Anônimo
28/01/2023 13:58

O texto precisa de uma revisão urgente!

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