Crítica | Cinema

Filho-Mãe

Novas e tristes famílias

(Pesar-Madar, IRI, CZE, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Mahnaz Mohammadi
  • Roteiro: Mohammad Rasoulof
  • Elenco: Raha Khodayari, Mahan Nasiri, Reza Behboodi, Maryam Boubani, Shiva Ordooie
  • Duração: 102 minutos

De uns tempos pra cá, cineastas vindas do Irã têm tido a coragem de expor a própria visão sobre uma sociedade onde esteve sempre à margem, porém em berlinda narrativa. Grandes filmes iranianos foram com frequência enfocados na opressão que essa personagem diminuída pelo Estado em situações-limite poderiam acrescentar ao cinema. Mesmo que Samira Makhmalbaf já exista há tempos, ela passa a ter um lugar de menor exceção quando alguém como Mahnaz Mohammadi toma a coragem de romper o silêncio; seu Filho-Mãe estreia nos cinemas e volta a jogar luz sobre a ausência de direitos femininos.

Pouco experiente no cinema, com apenas um longa anterior, Mohammadi conta, no entanto, com roteiro de Mohammad Rasoulof (Urso de Ouro em Berlim por Não Há Mal Algum) para dar base à trajetória de seus personagens. Como era de se esperar, não apenas o feminino está em voga aqui como a maternidade, condição inerente exclusivamente à mulher, e que pode definir o futuro de muitas em seu país. Parece incrível perceber que ainda existam tantas histórias para serem contadas a respeito da perda dos direitos humanos em países com dogmas tão arcaicos, e tão reféns de religiões castradoras.

Filho-mãe
Foto: Divulgação

A forma como Mohammadi filma a personagem de Raha Khodayari é emblemática – ela está constantemente em destaque imagético. Centralizada no ônibus, com um vão aberto entre a multidão, submergindo de uma nuvem de fumaça na fábrica onde trabalha, não é apenas seu protagonismo que é destacado, mas sua condição de exceção, destoando do resto que seguem regras impossíveis de serem questionadas. Seu lugar é de submissão, mas também de sombra na vida do pequeno Amir, seu filho que precisa ser apagado para que possa ascender, social e moralmente. É sintomático a sucessão de eventos, sua ordem progressiva para que as gangorras narrativas se desestabilizem e possam beneficiar os dois personagens.

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Quando Leila sai de cena, Amir pode então mostrar a sua forma de também violentar-se pela família. Enquanto a mãe perde o direito à sê-lo, o filho perde o som – são extirpados dele mais do que o direito de falar, como principalmente o de se expressar, e ter identidade. Filho-Mãe é uma jornada destruidora para uma mulher, para um recorte social marginalizado pelos desvalidos no Irã, mas muito mostra também a falência do país enquanto mantenedor de uma política humanitária como um todo, que alija ainda mais pessoas já degradadas pelo não ter. Nessa teia de micro tragédias, perde mais do que a mãe ou o filho, mas toda uma nação.

Filho-Mãe
Foto: Divulgação

O filme divide sua estrutura, assim como seu título, e exibe dois motes quase independentes, cada um com um propósito particular em relação a seus protagonistas. Unidos, representam essa parábola de dissolução familiar a quem parecem estar fadados todos os núcleos desfavorecidos iranianos. Em sua cinematografia, constantemente o mote é conflitante e no limite das soluções. Quando os atos tendem a reproduzir o regime e ser tão destruidor quanto o Estado, a saída não parece ser outra que não o fim. Eventualmente são narrativas que permitem uma ambiguidade maior que aqui, mais taxativo.

Como nunca há uma solução fácil em se tratando de produções do Oriente Médio, impressiona que Filho-Mãe seja tão decisivo em sua conclusão, definindo o destino de seus personagens de forma tão literal. Me parece mais interessante, por exemplo, a relação de Amir e Kazem, o homem que deseja casar com sua mãe viúva. Os dois encontros entre os personagens são tão recheados de inúmeras possibilidades, tão amplas e ambivalentes, que o espectador carece de novos encontros entre os personagens, que tenderiam a enriquecer ainda mais essa violenta história familiar, tecida nas entrelinhas do horror de cada nova informação, cena e olhar.

Um grande momento
Amir e Kazem se encontram pela primeira vez

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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