Crítica | Streaming

Ilhados

Lost com influenciadores

(Ilhados, BRA, 2021)
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Victor Soares
  • Roteiro: Amanda Caliari, Victor Soares
  • Elenco: João Briet, Priscila Caliari, Nicholas Coutinho, Fael, Pietro Guedes, Joãozinho, Gregory Kessey, , Ingrid Ohara, Isa Paoli, Luiza Parente, Gabriel Peixinho, Fernanda Schneider, Lorella Verta, Vivi Wanderley
  • Duração: 73 minutos

Os youtubers, tiktokers, instragrammers de hoje não precisam de salas de cinema para testar a popularidade. Se isso é sabido, a produção Ilhados, que estreou timidamente no VOD em meados de maio, agora ganha uma plataforma maior e global — A Netflix — para assegurar o poder de influência da turminha que trabalha nas redes sociais. Dublês de atuação e protagonistas nos seus perfis, eles são dirigidos por Victor Soares (que já fez alguns curtas) a partir de um “roteiro” escrito por ele e Amanda Caliari

Praga global contemporânea

Filmado em setembro de 2020, durante a pandemia Covid-19, em Angra, o arremedo de trama se centra em um grupo de influenciadores, que são amigos entre si e até namoram, estão enfrentando problemas com a audiência e inclusive sofrendo cancelamento. Eles então se retiram para uma ilha paradisíaca e chegando lá, após uma tempestade, ficam realmente isolados do mundo real (e virtual).

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Acostumados a ter tudo, reis e rainhas da permuta e dos contratos publicitários, Ingrid O Hara — a única que eu já conhecia por ter sido parte do elenco de De Férias com Ex –, Luiza Parente, Vivi Wanderley, Gregory Kessey, Pietro Guedes e Gabriel Peixinho precisam praticar o desprendimento para manter a verossimilhança em Ilhados. Luiza, Ingrid e Gabriel já “atuaram” em alguns filmes e webséries da Viih Tube (que também está na Netflix em Amiga do Inimigo) e trazem essa expertise para Ilhados, um produto que certamente quer agregar o público juvenil, adulto e até infantil que acompanha alguns desses influenciadores. Mas, para chegar no patamar, que mesmo não sendo sempre bom ainda é muito superior ao visto aqui, das produções do streaming que são estreladas por Maysa ou Larissa Manoela, ainda é preciso dar longas e ritmadas braçadas.

Na ilha, tudo é diversão até que — e essa progressão não existe no filme já que o ritmo da narrativa é mal executado — a aventura, que era para ser um Brincando com Fogo ou Soltos em Floripa se transforma em No Limite soft. Eles, calmamente, tentam se alimentar, lidar com a falta de luz – e conectividade! – e por ultimo, escapar. Uma situação ideal para se manter a tranquilidade, os looks, a make e os penteados sempre nos trinques, certo?

Ilhados (2021)
Foto: Divulgação

#LuaEstamosComVc

Se semi conhecidos para o mundo mesmo sendo celebridades nas redes, o elenco até poderia fazer a transição para o mundo de atuação se houvesse ferramentas dramáticas para tanto. Nitidamente decorando as falas, nenhum deles consegue passar qualquer dramaticidade e tornam o filme, mal dirigido e sustentado por um fiapo de história, um experimento bem constrangedor. Entre os dialogos nada inspirados, surgem alguns dignos de fazer um print e expor, como Olivia ao ser rejeitada mais uma vez por Bernardo “Para de se fazer de coitado e vira homem”

Na busca do google pelo filme, entre os títulos relacionados estão Tempo de M. Night Shyamalan — já que o algoritmo os considera tematicamente próximos — ou seja: suspense no ar com todas as convenções possíveis do gênero mas querendo “pagar de” uma crítica sobre a cultura do cancelamento para divertir o público fiel ao tipo de conteúdo que o elenco desse Ilhados produz, certamente influenciado pelo cinema de Shya, pela série Lost e pelo filme O Impossível. Mas nessa de se deixar influenciar, talvez pela falta de traquejo e estudo dos envolvidos, Ilhados não supera o amadorismo técnico em nenhuma cena.

Visualmente, se a arquitetura do filme segue uma forma datada, ele é filmado e fotografado como aqueles stories cheios de filtros, pôr do sol, amanhecer e luzes estroboscópicas das baladas e lua noturnos, tudo muito exagerado e feio além dos erros crassos de enquadro e decupagem das cenas. Conseguiram deixar Angra dos Reis, um pequeno paraíso, realmente enfeiada na tela. E Victor ainda exagera ao integrar a estética das redes na narrativa — completamente oposto ao que Gil Barone faz de forma harmônica em Alice Junior, também na Netflix. A bateria do iPhone acaba e o interesse em ir até o final de Ilhados, com seu pouco mais de 70 minutos de duração, também se esvai já que tudo é muito óbvio e filmado na base da mediocridade.

Um grande momento
“Vai Olívia, me arrebenta!”

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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