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Andaimes

Asher, 17 anos, em busca de…

(Pigumim, ISR, POL, 2017)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Matan Yair
  • Roteiro: Matan Yair
  • Elenco: Asher Lax, Ami Smolartchik, Yaacov Cohen, Keren Berger
  • Duração: 90 minutos

Asher é um adolescente que, apesar da aparência mais velha e das inúmeras atribuições, não perdeu o diálogo com esse período. Apesar de ter muitas ocupações (ou exatamente por ter sido impedido de vivê-la na plenitude), trabalhando e posteriormente cuidando do pai e do negócio da família, estudando, se apaixonando timidamente, se envolvendo emocionalmente com um professor, o jovem israelense tem muitos pontos em comum com Will Hunting, o jovem explosivo desenvolvido e interpretado por Matt Damon em Gênio Indomável. O que os particulariza é a humanidade que vai aflorando em ambos, com Will caminhando para uma transmutação emocional externa, e Asher mergulhando em uma profunda crise existencial e interna, em Andaimes, longa que estreia na plataforma Reserva Imovision.

O diretor Matan Yair estreia na direção com uma dissecação de personagem que, ultimamente, não tem sido tão minuciosa quanto em seu estudo. A percepção não é apenas intuitiva, mas muito também gráfica, quase um mecanismo criado em particular para adentrar nessa persona e tentar traduzir seu universo de constante conflito na tela. Não estamos falando apenas de um rapaz desajustado, ou talvez nem seja isso; a Asher, agrega mais a palavra desordeiro, no sentido de transformador da ordem, mantenedor de um clima constante de tumulto exterior para justificar sua própria desordem emocional.

Andaimes
Foto: Divulgação

Estritamente centrado na leitura desse personagem, Andaimes não deixa de sofisticar sua leitura, suas imagens e sua textura por essa espinha dorsal tão restrita. Pelo contrário, de caráter naturalista, o filme tendo a aparentar a força que o melhor do cinema dos irmãos Dardenne costuma nos oferecer, com uma carga de tensão explícita que raramente encontramos nos belgas. Porque sua figura central é muito exteriorizada, e conforme o filme lhe dá contornos, começa então a perceber seu interior e rachar diante do que encontra lá, antes não investigado. O filme consegue imprimir em seus planos essa latência de sensações, todas à flor da pele e em constante ponto de ebulição.

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Apesar desse cerne bem restritivo, o filme não abdica formalmente do seu entorno, reservando o tempo necessário para que Asher tenha uma vida reconhecível, nos importemos com ele e saibamos as minúcias de seu entorno. O grupo de apoio que o segue na escola, a vida do professor pelo qual ele é fascinado, sua relação com seu pai, a paquera singela com a moça da vizinhança, o filme esquadrinha suas relações para dar suporte ao seu próprio pedestal. O detalhamento do roteiro de Yair é meticuloso, colocando seu protagonista em situações-limite com o pai e o professor (a cena do tapa na cara de um lado, a cena que ele encontra o professor dando aula a outra turma, mais avançada intelectualmente, de outro) que o definem, e elevam o todo.

Andaimes
Foto: Divulgação

Nada disso seria possível sem o corpo de Asher Lax em cena. Vivendo exatamente o que seu nome já imprime, o rapaz foi encontrado para o filme e já conseguiu uma carreira a partir dali. Se sua vida e a de seu personagem se confundem, tudo faz sentido em sua entrega; seu trabalho físico é tão intenso quanto o que seu rosto expõe, uma impaciência, uma pressa de conseguir alcançar perspectivas que foram negados a todos como ele, inclusive dentro da própria casa, onde é constantemente diminuído e posto em dúvida. Ele não sabe exatamente onde quer chegar, está em processo de descoberta no exato momento que o flagramos, mas ele quer mais do que o óbvio lhe oferece.

Se trata de uma produção israelense, e não de um drama social humanista cotado ao Oscar, então diferentemente de Gênio Indomável, Andaimes não chega aos lugares esperados. Não se trata de uma jornada de redenção, mas de uma busca por uma descoberta exterior que revela um novo alguém que nem se imaginava existir, questionador e revoltado com o que lhe é sistematicamente negado. Asher não sabe nem a que sonhos têm direito, mas ele quer ter o direito de tê-los. A cena final não deixa nada claro, a não ser que agora nosso protagonista já sabe exatamente o que quer saber, que lugares ele pode acessar para transformar o jovem homem sem oportunidades, sem limites e sem afeto em um alguém melhor

Um grande momento
Vários, quase o filme inteiro, mas… o confronto com a viúva.

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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