Crítica | Festival

First Cow: A Primeira Vaca da América

Novas diretrizes para trabalho e afeto

(First Cow, EUA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Kelly Reichardt
  • Roteiro: Jonathan Raymond, Kelly Reichardt
  • Elenco: Alia Shawkat, John Magaro, Dylan Smith, Ryan Findley, Clayton Nemrow, Manuel Rodriguez, Orion Lee, Patrick D. Green
  • Duração: 122 minutos

Talvez nunca anteriormente os valores e as intenções de Kelly Reichardt tenham sido tão explicitadas quanto em First Cow. A sede pelo encontro, a vontade do outro, de estar juntos, de encontrar um refúgio emocional quando lhe falta o físico, quando esvoaça o prático. O Encontro, afinal… e não algo vazio e inconsequente. Kelly está interessada nesse transporte, do gráfico pro físico, na interiorização do que acontece no ambiente externo se transformar em ebulição interna, e daí nascer essa inquietação que promove uma espécie de união entre polos geralmente opostos, que se amalgamam em torno de um sentimento inesperado de conexão.

Com uma interconexão a estabelecer com sua obra, uma das protagonistas de Certas Mulheres, Lily Gladstone, faz rápida participação abrindo um prólogo que caminha todo o longa como uma força espiritual para o qual o filme é atraído. Sua autora encontrou no romance de Jonathan Raymond (que adaptou o roteiro junto com ela) a inspiração para continuar essa pulsão de vida que valida seu trabalho, a torna relevante e coloca na conta do incompreensível a pouca reverberação que o mesmo alcança. O cinema de Kelly tem raiz em uma classe de humanismo que reivindica pra si tudo ao seu redor, assimilando espaços naturais como parte integrante desse grande encontro cósmico.

First Cow
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

O filme se embrenha não apenas nas florestas do Oregon, mas principalmente nos alicerces que Cookie e King-Lu fincam naquele arremedo de sociedade, sobrevivente dos costumes e das aparências vigentes e absolutamente refém das convenções,que vão sendo pouco a pouco reveladas, dissecadas sutilmente e colocadas na berlinda quando forasteiros pretendem também realizar o “sonho americano”; não seria ele para todos, ou somente para poucos selecionados? O quinhão de esperança é distribuído a todos, mas a própria sociedade se encarrega de fazer a triagem e decidir quem tem ou não tem direito ao sonho.

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Não deixa de ser irônico que o bem sobre o qual a dupla tenta se apossar seja algo tão natural quanto diminuído por quem possui. Sem precisar tomar algo que não seja naturalmente reposto e reintroduzido, os protagonistas do filme usufruem de um misto de inocência e destreza para galgar um microscópico lugar no mundo. First Cow insere os estrangeiros em uma sociedade que não tem interesse em abarcar suas capacidades, apenas usá-los para posteriormente jogar fora — o Homem tira proveito do que não entende, para só então descartá-los. Como uma parábola antiga, o filme apresenta seus elementos para a criação de uma moral, ainda que essa seja das mais infames. Esse lugar agridoce é onde também se insere o cinema de Kelly.

First Cow
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Paralela à questões de inserção social sistematicamente negadas ao longo dos tempos,Cookie e King-Lu iniciam uma relação construída nas entrelinhas da amizade, da necessidade e do conforto, que se descortina de maneira tão delicada quanto íntima. A cena onde a narrativa demarca suas posições dentro de seu microcosmos, cada um com uma tarefa a cumprir, um lugar previamente estabelecido que é corrompido pelo jogo imagético, é um mostruário de que Kelly não pretende responder perguntas óbvias ou calcula entregar soluções fáceis; o afeto nasce dos lugares mais inóspitos, sob influências das mais diversas, incluindo às da adversidade.

Com a ajuda da lente espetacular de Christopher Blauvelt (de Emma.), Kelly cria um paralelo entre toda sua obra, mas especificamente uma leitura que empreende entre Meek’s Cutoff e esse último filme, saindo de um universo hostil para mulheres para uma hostilidade direcionada enfim ao exterior, denunciando em First Cow a natureza xenofóbica e exclusivista da América desde os seus primórdios, com um preciosismo raro a cineasta americanos. O abraço final de seu filme tem tarefa contraditória, mostrar que minorias muitas vezes não têm outra mão que não a de seus pares, e estabelecer um laço indissociável entre seres desgarrados de todo o resto. Há liberdade, enfim, a partir do encontro.

Um grande momento
O abraço

[International Film Festival Rotterdam 2021]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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