Crítica | Festival

Forman vs Forman

(Forman vs Forman, CZE, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Jakub Hejna, Helena Trestíková
  • Roteiro: Jakub Hejna, Helena Trestíková
  • Duração: 77 minutos
  • Nota:

Depois de fazer exercícios no quintal de casa, um ainda jovem Miloš Forman fala para a câmera que não tem intenção de se analisar. Assim somos convidados a entrar no documentário Forman vs Forman, um resgate da vida do diretor tcheco responsável por pérolas como O Baile dos Bombeiros, Um Estranho no Ninho e Amadeus, onde ele, de uma outra forma, faz a autoanálise rejeitada.

O filme de montagem assinado por Helena Trestiková e Jakub Hejna une depoimentos do cineasta sobre sua vida e sua obra. Embora siga uma ordem cronológica, mescla entrevistas e conversas de várias fases do diretor, o que dá ao longa um desenvolvimento interessante, já que são visões de si que vão mudando de acordo com a proximidade temporal ou não aos fatos e são alteradas pela autopercepção.

Forman vs Forman

Como em outros documentários biográficos, o ponto de partida é o nascimento do diretor na cidade de Čáslav, Tchecoslováquia. Dali, passa pela Segunda Guerra e o Golpe de Praga, pelo nazismo e o comunismo. Imagens de arquivo ilustram a percepção do documentado da sua própria história e da história do país. A busca por um lugar é muito destacada, seja oralmente, quando Forman nos narra a morte dos pais em campos de concentração, as muitas casas onde morou e o tempo no internato para órfãos da guerra; ou visualmente, com deslocamentos e espaços.

Ao chegar ao cinema, depois de não ser compreendido (ou talvez por sê-lo demais) em uma prova específica para o curso de teatro, as imagens do documentário passam a ser outras, assim como o ritmo do longa. O realizador tem mais espaço nas imagens resgatadas, assim como trechos dos filmes. Os primeiros marcam uma produção que Forman rejeita – ou será que despreza é uma palavra melhor? -, como filmes de Karel Stekly, Vladimir Vicek e Vaclav Sklenar. As imagens de suas obras surgem quando ele desponta na Nouvelle Vague Tcheca: Audição, Pedro e Paula e Os Amores; passam pela não exibição em Cannes de O Baile do Bombeiros em 1968, e o acompanham em Hollywood, com o fracasso de Procura Insaciável, o sucesso de Um Estranho no Ninho e a volta a Praga para filmar Amadeus.

Forman vs Forman

Sempre presente, nesses relatos e resgates, o cineasta passa de novo por toda a sua vida e fala de mudanças significativas do seu mundo e de si mesmo: sua relação com o ambiente, com a família, com aquilo que teve que viver e quais foram as marcas que ficaram. Por trás de um objetivo tradicional, já visto antes, Forman vs Forman se destaca pelo dispositivo. Quando reconstrói uma biografia resgatando material de arquivo sobre e do documentado, mistura dizerem de vários Formans e, como dizia Heráclito, um homem não pode se banhar duas vezes no mesmo rio, porque o rio muda e o homem também. 

Além disso, há o carisma da própria figura e sua história marcada por perdas e muitos deslocamentos involuntários. É bom estar com Miloš Forman ouvindo-o falar de si, e de comunismo, política e arte. Depois da jornada, vale voltar ao começo, assim como o filme faz com o personagem. Partindo da “não autoanálise”, o documentário mostra alguém que passou a vida inteira se analisando e falando sobre isso. Mas quem não, né?

Um grande momento
Cannes.

[25º É Tudo Verdade]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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