Crítica | CinemaDestaque

Holy Spider

Horror personalizado

(Holy Spider, DEN, ALE, SWE, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ali Abbasi
  • Roteiro: Ali Abbasi, Afshin Kamran Bahrami
  • Elenco: Mehdi Bajestani, Zar Amir-Ebrahimi, Arash Ashtiani, Forouzan Jamshidnejad, Sina Parvaneh, Nima Akbarpour
  • Duração: 116 minutos

Em setembro de 2022, a morte de uma jovem iraniana pela chamada Polícia da Moralidade iraniana chocou o país e o mundo. Ela era Jina Mahsa Amini e segundo as autoridades locais fora presa por não usar adequadamente o hijab, não estava com os cabelos cobertos como deveria. Desde então, protestos tomaram conta do país contra a tal polícia e seus métodos violentos contra as mulheres, legitimados pelo regime que impera desde que o Irã se transformou em uma república islâmica com a tomada do poder pelo Aiatolá Khomeini em 1973.

Embora com o tempo as mulheres tenham adquirido alguns direitos, como a possibilidade de frequentar a universidade, trabalhar e dirigir automóveis desde que acompanhadas, a legislação do país as trata com diferença, como parcialmente incapazes, sempre dependentes dos homens e com menos direitos do que eles. Nessa teocratização do Estado que gera a discrepância social, tão opressora às que a vivem cotidianamente e chocante aos olhos dos que estão fora, há quem entenda que a moralização só foi possível graças ao extremismo.

Holy Spider
Mubi

Esse extremismo alienado é o centro de Holy Spider, novo filme de Ali Abbasi indicado à Palma de Ouro e que deu a Zar Amir-Ebrahimi o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cannes. O longa remete à história real de Saeed Hanaei, serial killer iraniano que, até ser preso, matou dezesseis prostitutas na cidade de Mashhad. Segundo o assassino, sua missão era limpar o lugar da depravação moral com o reconhecimento de Deus. À história, chocante e repugnante por si, o diretor acrescenta ainda mais horror com seu grafismo e ali está o ser que representa o sistema.

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Abbasi chamou a atenção do mundo com seu segundo longa, a fábula fantástica nórdica que mistura trolls e pertencimento Border. Nascido no Irã, mas radicado na Dinamarca, ele volta ao seu país natal e, numa espécie de busca pela lógica da alienação e do extremismo religioso que levam à exclusão e ao ódio imperante, personaliza o horror do Estado em uma criatura degenerada. Habilidoso com a construção da imagem, ele confunde, impressiona, choca e até passa do ponto ao expor a violência, mas no jogo dos planos mostra que Hanei é um e é muitos, é maior do que ele e do que seu próprio discurso.

Holy Spider
Mubi

A história contada tem suas liberdades, até para que elementos de contraposição tenham lugar, tanto concretos quanto intangíveis. No primeiro caso, o diretor insere na trama a figura da jornalista Rahimi, um contraponto que busca a identificação com as vítimas e a representação da mulher naquela sociedade em outros lugares de assédio e violência. Já no segundo, imagina e concretiza imageticamente a relação com o etéreo, quando da dissociação com a realidade. Em uma sociedade que pune e persegue pelo gênero, essa alternância entre o real e o irreal, sob a desculpa da religião, ali representada, é muito pertinente. 

O roteiro, escrito pelo próprio Abbasi ao lado de Afshin Kamran Bahrami, encontra nos relatos reais do serial killer em que se baseia os indícios da corrupção ética pregada em nome da moral, aquela que se repete de maneira macro e institucionalizada no país. Em suas relações familiares, identificam-se sintomas que estão disfarçados como a libertação do sistema classista e explorador dos tempos de Reza Pahlav. Hanaei é aquele que cuida e se preocupa, mas também é o que, escondendo todas as suas perversões, diferencia, julga e elimina – da forma mais apavorante – a bem da dignidade e em nome de Deus. Ele é aquilo que o cerca.

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Mubi

Policial eficiente e exemplar sofisticado de true crime, Holy Spider é um filme arriscado e complexo, que transparece a intenção de seu realizador em perceber uma sociedade que ele conhece, mas sem realmente assimilar a estrutura pela complexidade da abstração da relação que possibilita fatos concretos tão chocantes. Um experiência indigesta, sem dúvida, mas que vale a pena, pelo como Abbasi conta a história e sabe construir imagens que ficam com a gente, mas ainda mais pelo contexto.

Um grande momento
A fuga

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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