Crítica | Streaming

Hotel Transilvânia: Transformonstrão

Igual, mas diferente

(Hotel Transylvania: Transformania, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Roteiro: Derek Drymon, Jennifer Kluska
  • Duração: 98 minutos

Em 2012 conhecemos o Hotel Transilvânia, um resort criado por Conde Drácula onde os monstros se reuniam para se sentir seguros da humanidade. Lá vimos um pai tentar criar uma farsa para manter a filha vampira afastada dos seres humanos que deu tão errado que ela acabou casada com o primeiro cara que apareceu e teve um filho com ele; uma criança que também acompanhamos toda a pressão para saber se tinha poderes ou não, e, saindo um pouco do lugar, acompanhamos a família em um cruzeiro que trouxe novos personagens e fez Drac encontrar um novo amor. Mas parece que ainda tinha história para contar, e eis que chega ao Prime Vídeo, dessa vez sem nem passar pelos cinemas, Hotel Transilvânia: Transformonstrão. E agora com o vampiro de sempre virando gente e Johnny, o genro, virando um dragão.

O fato de reunir os vilões clássicos do terror, como Drácula, Frankenstein, múmia, lobisomem e homem invisível, sempre foi uma das coisas divertidas da animação. A franquia transformou esses elementos clássicos da literatura e do cinema fantástico em seres facilmente gostáveis pelas crianças, com nomes, famílias e traços cômicos muito marcantes. Todos são prontamente identificáveis, mas têm uma outra conotação em nada relacionada com aquela original, não há nada de medo ou susto por aqui. Ainda com o sinal trocado, de toda a série de filmes, talvez o personagem mais “assustador” seja Van Helsing, mas que chega tão atrapalhado e absurdo que nem consegue ser levado a sério. 

Hotel Transilvânia: Transformonstrão
Amazon Prime Video

Embora tenha personagens divertidos e bons momentos, a verdade é que Hotel Transilvânia nunca foi uma franquia tão popular. A controversa marca de Adam Sandler, que dublou Drac nos outros três filmes, produziu os dois primeiros e chegou a ser um dos roteiristas de Hotel Transilvânia 2, sempre foi muito presente. Tudo o que se vê, portanto, sai desse lugar de relações familiares/humanas conhecidas e encontra um humor característico, tonto e eternamente adolescente e de timing que varia entre o stand up e a sitcom, mas vem suavizado pela animação e pelo público-alvo. Muita coisa disso ficou para Hotel Transilvânia: Transformonstrão, é óbvio, mas muita coisa mudou com a saída do comediante, tanto da dublagem do personagem principal quanto da produção. 

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No 125° aniversário do hotel, Ericka quer curtir um tempo com seu marido, que também quer descansar de tudo, mas como entregar o seu legado, toda a sua história a alguém tão diferente? Mais do que ser ou não humano, estar ou não com sua filha, o que incomoda em Johnny é que ele é diferente e tem desejos de mudança, quer inovar, quer modernizar, trazer uma visão nova para o lugar. Como bem resumido na festa que abre o filme, quer tocar a banda da festa, e isso desespera Drac. Seu legado é glorioso demais para ser alterado, tudo funciona muito bem desde sempre e não precisa de escadas rolantes, aulas de Yoga, atividades a ele estranhas ou seja o lá o que venha da cabeça daqueles que têm menos idade e, portanto, menos sabedoria e know how do que ele.

Hotel Transilvânia: Transformonstrão
Amazon Prime Video

Em Hotel Transilvânia: Transformonstrão, a trama gira em torno do desapego, aquilo que Drac está há três filmes tentando, mas nunca conseguiu exercer. Não só tem a relação de posse com a filha e a não-aceitação do genro, como o seu apego pelo hotel. Aqui, uma coisa interfere diretamente na outra. Uma mentira leva a uma transformação que, com uma das invenções de Dr. Van Helsing, afeta não só a dupla sogro-genro, mas Wayne, o lobisomem; Frank, o Frankenstein; Murray, a múmia; Griffiths, o homem invisível, e até Blobb. Algo que funciona de um jeito, mas ninguém sabe onde vai chegar.

Se começa seguro de seu tema, Hotel Transilvânia: Transformonstrão não consegue se manter muito fiel durante todo o caminho, pegando atalhos aqui e ali e perdendo-se no sentimentalismo antes de conseguir retornar, mas com mais coração do que nos filmes anteriores. Os personagens são os mesmos, as relações também, mas o modo como nos envolvemos com eles é diferente. E assim como o distanciamento do castelo-hotel deu um vigor ao filme anterior, Férias Monstruosas, a trama também ganha contornos interessantes aqui por chegar tão perto dos deliciosos filmes de aventura dos anos 1980, como os Indiana Jones, Tudo por uma Esmeralda e afins. Ainda que mais infantil, são elementos como esses que garantem a diversão adultos.

Hotel Transilvânia: Transformonstrão
Amazon Prime Video

Entretenimento para toda a família, com momentos divertidos, alguns nostálgicos e outros bem bonitos de se ver, Hotel Transilvânia: Transformonstrão surpreende positivamente já que é o quarto filme de uma franquia. Se beneficiou da renovação e da mudança de ares — embora tenha perdido nas canções da trilha, coisa que ninguém pode questionar nos filmes de Sandler –, e chegou renovado, não mudando vidas e deixando marcas profundas, mas cumprindo seu papel com bastante competência.

Um grande momento
A gruta de cristais

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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