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Jon Batiste: American Symphony

Diáspora emocional

(American Symphony, EUA, 2023)
Nota  

Existe um motivo pelo qual um homem usa uma jaqueta com seu sobrenome bordado nas costas. Quando você nunca fez ideia do significado da palavra orgulho, e ela finalmente invade sua vida, sua família, a existência de uma geração inteira até sua chegada, fazemos então uma ligeira ideia do que seja isso. Esbarramos nesse lugar, nós brancos, porque vivemos até o fim dos dias sem nos preocuparmos com nossa cor ou com evoluir ou não na história por causa dela. Pessoas pretas simplesmente podem não ter uma chance por serem pretas, isso é histórico e não mudou. Por isso, uma possível arrogância de qualquer parte não pode ser nem sequer cogitada; esse tipo de orgulho como algo a ser batalhado, conquistado com suor de muitas encarnações, está presente em Jon Batiste, e é parte fundamental da compreensão de muitos planos de Jon Batiste: American Symphony.

Sim, Batiste é muito jovem e já tem um “documentário sobre sua vida”, e isso precisa ser citado assim, entre aspas. Porque American Symphony não é um filme sobre a vida de Jon Batiste, apesar de ser; tem muita coisa por trás da intensidade dessa decisão. O orgulho perpassa grande parte desses motivos e não pode ser vilanizado, embora também não possa ser tratado com desdém; não estamos falando de pessoas que tenham uma grande quantidade de exemplos de conquistas e grandezas. E ainda que elas, hoje, existam em número maior que no passado, ainda é ínfimo no registro da História. Vê-lo no lugar da gangorra entre a glória suprema nunca antes imaginada e a certeza da mortalidade, também acaba por cercar essa obra de particularidade. 

Esse é o lugar que interessa investigar o filme, o contrário do que poderíamos imaginar à decisão de um estadunidense eternizar a própria vida aos 35 anos – hoje, 37. Jon Batiste não é mais um estadunidense, nem mais um artista, e nem mais um homem preto qualquer a alcançar alguns muitos degraus de distância de nós. Porém, essa é a grande sacada de Jon Batiste: American Symphony; ao retirar de suas costas a condição de grande astro pop (ou indefinível?) da atualidade – leia-se atualidade, os últimos 3 ou 4 anos; é o máximo de tempo que, hoje, alguém é o “maior algo” – o filme enxerga seu cabo de guerra. Dinheiro, fama, influência, ‘star power’, nada disso é suficiente para mostrar o quão ironicamente humana é a existência de alguém que pode perder seu grande amor em um segundo. 

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Porque uma pessoa preta, o filme diz, sempre terá não apenas muito mais a provar, mas muito mais motivos para cair, perante a sociedade. Porque não é dado a Batiste a chance de ser múltiplo? Onde seus esforços precisam ser maiores para que sua idealização de permanência se concretize e mostre a certeza da perenidade? Interessa a Jon Batiste: American Symphony que essa humanidade perpasse também o mundano do cotidiano; a interação com as redes sociais, a certeza da perda iminente, a vontade de ir além de uma peça de engrenagem social. Por trás do grande músico vencedor de prêmios, existe ainda aquela visão de um homem que está sujeito a algo maior que ele, e sim, Batiste ainda é efêmero quando comparado aos julgamentos virtuais e os revezes possíveis. 

São delicadas as maneiras com que o diretor Matthew Heineman (indicado ao Oscar por Cartel Land) segue Batiste, e decide imprimir o que acaba por fazer, com o material que tem. Mais emocionante do que a história de amor que o une a escritora Suleika Jaouad, é observar a história de amor que o filme constrói com as raízes que o músico representa, seu lugar de origem, sua representatividade que assim o é apenas por sua presença. É nos momentos de reflexão que Jon Batiste: American Symphony consegue imprimir o dobro de sua força, como na sequência turbulenta pós-Grammys, ou quando a montagem o coloca em diversas situações ao mesmo tempo, que vão desde a quimioterapia da esposa até um diálogo com Anna Wintour na plateia de um desfile. É com essa suave explosão que o filme deixa claro sua necessidade, e a forma para qual o faz é maior do que a figura de Batiste em si. 

Porque precisamos louvar o artista somente após sua morte, ou quando ele já não tem mais expressão suficiente para devolver em construção de legado? Jon Batiste: American Symphony se faz premente, acima de tudo, porque essas pessoas não tem material de orgulho suficiente para educar novas gerações, diante das provações históricas que ainda sofrem. Porque a imagem do homem preto de sucesso ainda é desconhecida, ainda é estranha na rua, ainda precisa encarar a dubiedade entre a fama e o desconhecimento. Quem acha que o racismo é coisa do passado (alguém acha isso???), que vá a qualquer festival de cinema e escute a voz do patriarcado branco lamentando a confecção de suas lápides. Jon Batiste, na humanidade das dúvidas que o compõem, é um dos muitos exemplos de que a cultura preta ainda precisa de muitos O Dia que Te Conheci, de muitos Nosso Sonho, de muitos Lázaros, de muitas Oprahs, de muitas Linns. De muitos Jons. 

Um grande momento

O engraxate

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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