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Kill Boksoon

O balé dos deveres

(길복순, COR, 2023)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Byun Sung-hyun
  • Roteiro: Byun Sung-hyun
  • Elenco: Jeon Do-yeon, Sol Kyung-gu, Esom, Kim Si-ah, Koo Kyo-hwan, Lee Yeon, Kim Ki-cheon, Jang In-sub, Park Kwang-jae, Choi Byung-mo
  • Duração: 136 minutos

Tendo acabado de assistir Você Não Estará Só, comecei a achar com a apresentação de Kill Boksoon que tinham adiantado maio, e filmes sobre a relação mãe e filha estavam chegando cedo demais. É também sobre isso, mas o sucesso da Netflix está mais próximo narrativamente de grandes produções sobre deveres profissionais, honra acima de tudo e a execução de tarefas como pêndulo moral do que sobre construção de afeto familiar. Como disse, isso não está excluído do pacote – e talvez seja o norte da produção, mas sem uma centralização excessiva. Essa relação é muito mais tomada como algo quase pedagógico na maternidade e nessa troca; como trata-se, talvez em sua essência como um jogo de tarefas a serem cumpridas e sobre como essas mesmas situações nos moldam, o doméstico é ele também (ou principalmente) um caminho para se aprender e ensinar. 

Byun Sung-hyun está aqui em seu quarto longa-metragem, e parece que aprendeu muito vendo grandes mestres asiáticos a respeito do que está em tela, visualmente falando. Toda a coreografia utilizada em cena impressiona, e ela não está em lugar de enfeite, mas realçando o que é concebido na totalidade. Digo isso pra entronizar não a qualidade das cenas, mas pra comentar o quão pontuais elas são, entrando na narrativa apenas quando avança o estado das coisas. Isso é um conceito que Byun agrega ao produto, porque entende o que o filme precisa e quando precisa, e sabe que não é a ação que rege a produção, e sim o contrário. Ainda assim, não falta ritmo a Kill Boksoon, mesmo quando os diálogos estão regendo as cenas. 

Kill Boksoon
No Ju-han/Netflix

E o balé é intenso, porque os atores-bailarinos estão muito bem conduzidos, em suas duas encarnações. É bonito ver como um grande ator asiático, seja ele coreano, japonês, chinês, qualquer que seja a nacionalidade, tem um trabalho corporal que consegue ser empregado com facilidade a outra dinâmica que não apenas a expressão emocional. É a mobilidade que cria essa impressão de integração entre suas especialidades, e move esses corpos com precisão e assertividade; nesse sentido, as coreografias também ajudam essa malha humana, porque todos parecem capazes de tudo. Capazes e indo além da eficiência em suas entregas, cada um em cena está entregando o máximo de suas capacidades no que se pede a eles. 

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Kill Boksoon, a despeito da forma como é conduzida a performance corporal, tanto de elenco quanto de sua ideia fílmica, está interessado em montar essa parábola a respeito de um conjunto de regras vigentes que a sociedade nos impõe. Às mulheres, principalmente, é esperado, nos dias de hoje, sororidade, reconhecimento de lutas, empatia quanto ao caminho traçados umas pelas outras, e nada disso está na pauta do roteiro. Na verdade, o filme coloca suas quatro personagens destacadas em constante rota de colisão, do que entendem como ideias, de manutenção de afetos, da conquista por respeito, tudo está sendo evidentemente questionado e reavaliado. Isso não coloca Byun e seu roteiro em posição machista, mas sim tenta tornar menos estável os prognósticos sociais para essas figuras, e que podem sim, porque não, reconfigurar essas questões para novos lados. 

Kill Boksoon
No Ju-han/Netflix

Enquanto figura central, Boksoon também tem uma outra dinâmica em sua relação com os personagens masculinos do universo. Por maiores que sejam (ou pareçam ser) os laços estabelecidos, todos estão cumprindo papéis sociais em um quadro que lhes cobra eficiência extrema e obediência às regras – criadas por um desses homens. Todas as relações existem em regime de conveniência; ainda que passem por simpatia, respeito, até eventualmente admiração e ligações de ordem mais profundas, cada um desses elementos está prestes a serem postos de lado se assim for exigido, por quaisquer que sejam as circunstâncias. Nesse sentido, Kill Boksoon é sim um filme muito melancólico, onde os deveres são colocados na frente dos desejos, até de maneira perpetuada, como iremos entender ao longo da produção. 

Existe uma característica do roteiro de Kill Boksoon que permite ao espectador entender a decodificação desses códigos de honra junto à percepção da protagonista quanto à sua experiência, emocional e profissional. Isso permite a Byun não apenas dar mais funcionalidade a sua protagonista, como também criar algumas das cenas mais criativas de seu filme, graças à leitura que ela consegue fazer das suas decisões, e do quanto ela conhece seus adversários. O clímax do filme, por exemplo, a homenagem imagética a trilogia Matrix se faz valer nas múltiplas possibilidades de confronto que surgem diante dos olhos da personagem-título. É quando se enfrentam a necessidade da execução e a certeza de seu fracasso; a matemática para concluir o contrato de maneira bem sucedida tem que excluir do raciocínio a fatalidade. 

Em uma experiência cinematográfica tão impregnada de dogmas e obrigatoriedades, é salutar que percebamos em Kill Boksoon uma saída para o livre arbítrio. Os eventos que se mostram adiante de sua ação (não perca a cena no meio dos créditos) não deixam dúvida do que estava sendo gerido conjuntamente nessa seara: a certeza de que, com ou sem riscos, o indivíduo ainda deve ter a sua disposição a capacidade de decisão quanto ao seu destino. 

Um grande momento
O resultado do telefonema no viva voz da presidente Cha

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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