Crítica | Streaming

Kimi: Alguém está escutando

Todos vigiados por todos

(Kimi, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Steven Soderbergh
  • Roteiro: David Koepp
  • Elenco: Zoë Kravitz, Byron Bowers, Rita Wilson, Robin Givens, India de Beaufort, Emily Kuroda, Jaime Camil, Alex Dobrenko, Derek DelGaudio, Charles Halford, Jacob Vargas
  • Duração: 89 minutos

Pouco tempo depois do início da pandemia, quando o mundo, apesar da sabotagem de alguns, era forçado a entrar em suspensão, lembro de ter lido um artigo sobre as condições de trabalho dos moderadores de conteúdo do Facebook, pessoas responsáveis por avaliar posts que haviam sido denunciados pelos usuários e cujo julgamento era complexo demais para os algoritmos de Zuckerberg. Como sempre, há momentos em que um humano precisa entrar em cena. Acontece que esse não é exatamente o tipo de trabalho que nós queremos que seja feito por pessoas. Como sabemos, as redes sociais são terreno fértil para o abominável. No artigo, havia a entrevista de uma brasileira, imigrante na Alemanha e funcionária da empresa terceirizada contratada pelo Facebook para a moderação do conteúdo. Geralmente, o trabalho é feito por imigrantes e refugiados: mão de obra barata e desesperada. No relato, a brasileira dizia que em sua longa rotina de trabalho estavam incluídos vídeos de execuções, mutilações e suicídio. E não havia qualquer tipo de suporte psicológico. Nada que se distancie muito do tipo de labor desumano que achávamos que seria extinguido por uma economia da informação.

Ainda nos primeiros minutos de Kimi: Alguém está escutando, novo filme de Steven Soderbergh (dos empolgantes Onze homens e um segredo e Magic Mike), me lembrei do artigo. Estreia da HBO Max, o filme me parece uma versão açucarada da realidade enfrentada por eles, mas falarei disso mais adiante. De cara, Soderbergh e David Koepp constroem um tipo de narrativa de mistério e crime que só consegue florescer em um filme de som. Por filme de som me refiro àquelas obras que valorizam a linguagem sonora além do usual. Bons exemplos não faltam, mas já que estamos no terreno do suspense e da paranoia, Blow Out (Brian de Palma, 1981) e A conversação (Francis Ford Coppola, 1974) são dois títulos que, além de excelentes, têm seus aromas bastante presentes em Kimi

Kimi - Alguém Está Escutando
New Line Cinema

A protagonista é Angela (Zöe Kravitz), uma moderadora de conteúdo que trabalha para a onipresente Amygdala Corporation (nome sugestivo). Mas escondidos por trás do estilo de vida millennial que Angela leva (um emprego bem pago em uma empresa de tecnologia, realizado em home office direto do conforto e da segurança de seu apartamento/bunker) estão o trauma, a agorafobia e o pânico constante. Kimi é bem sucedido em retratar essas angústias, e, como se não bastasse, Angela está sendo vigiada. Todos estão. E por todos. Ao mesmo tempo. Há, simultaneamente, algo de voyeur e de objeto observado na forma como nos relacionamos com a internet e, consequentemente, com o mundo.

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As cenas em que ela descobre os arquivos de áudio que motivam toda a trama são o ponto mais instigante de Kimi. É como se a partir daquele ponto tudo fosse possível e o longa pudesse crescer e se desenvolver por caminhos e mistérios infinitos. Mas falta fermento. O roteiro cai em vários lugares comuns e acaba por não oferecer uma narrativa original desse tipo de suspense criminal, em que a primeira faísca é gerada por uma gravação sonora. Por outro lado, Soderbergh entrega alguns momentos de alívio. Apesar dos mais de dois anos de vida pandêmica, é novidade ver um filme de circuito comercial em que as personagens precisam lidar com máscaras cirúrgicas, dispensers de álcool em gel, reformas barulhentas no apartamento do vizinho, consultas de telemedicina e crises de ansiedade social. Os ruídos do novo normal sempre presentes. É bom ver um filme disposto a trazer essas questões, por menos inovadora que seja a abordagem. 

Os dois pilares principais da trama são a individualização da vida e a hipervigilância, e aqui voltamos ao artigo sobre os moderadores do Facebook. De início, Kimi até parecia interessado em tratar dessas temáticas tão críticas da sociedade contemporânea, mas não se aprofundou em nenhum dos pontos que acreditava abordar. A respeito do dilema da vigilância exercida pelas grandes corporações de tecnologia, as tais big techs, o discurso oferecido parece mais do mesmo. E é aí que vem o meu problema com o filme. “Sua Alexa está te espionando!!!”, “Corporações são malvadas!!!”. Beleza, mas o que fazer com essa informação, narrativamente falando? Todo mundo já sabe disso, por mais que não ligue. O que não é tão óbvio para a maioria das pessoas são as repercussões dessa vigilância, o que ela representa para o futuro da humanidade, do indivíduo, da política. E dos trabalhadores que a realizam. “Mas o filme não tem a menor obrigação de responder essas perguntas”. É verdade. No entanto, para quê levantar a bola se não vai cortar? Nenhum filme tem que servir a uma crítica ou comentário social. Jamais. Manifestação artística alguma deve ser forçada a falar de nada. Mas, se começou (e isso vale pra qualquer tema, não apenas os sociopolíticos), que pelo menos não fique no raso. 

Um grande momento
Os vizinhos se olhando pelas janelas

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Marcus Benjamin Figueredo

Marcus Benjamin Figueredo é corintiano, cineasta e jornalista, filho da UnB. Também é pesquisador e já atuou como montador de clipes musicais, produtor, curador e membro do júri em festivais de cinema universitário e roteiro. Gosta de sinuca.
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