Crítica | Outras metragens

Onde eu Moro

Ao nosso alcance

(Lead Me Home, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Pedro Kos, Jon Shenk
  • Roteiro: Pedro Kos, Jon Shenk
  • Duração: 39 minutos

As imagens captadas pelo documentário Onde eu Moro, disponível na Netflix, são de fácil identificação a moradores de grandes capitais brasileiras. Apesar de estarmos muito longe de Los Angeles, as barracas de camping abertas nos espaços urbanos são significativos profundos da desigualdade que rasga a sociedade e de como a crise econômica deveria ser um problema de todos, e não daqueles que vivem dessa forma. Em determinado momento, uma manifestação é feita onde as pessoas bradam: “há pessoas morrendo na sua porta”, e ao caminhar pela avenida Paulista ou pela Nossa Senhora de Copacabana, a visão é a mesma; o desespero também deveria ser.

Dirigido pelo brasileiro Pedro Kos e pelo americano Jon Shenk, o filme acaba de ser indicado ao Oscar na categoria de curta documental (mesmo sendo um média-metragem; como eles gostam de indicar médias!) e é só assisti-lo para identificar o merecimento e exatamente onde bateu entre os seus pares, que o indicaram com justiça. O filme não tenta criar alternativas para o que vemos, pelo contrário, ele arma situações de confrontamento onde o protesto citado acima é só o momento explícito onde graficamente o tempo todo está se dizendo o quanto aquilo é visível e alarmante, embora nada seja mudado de imediato.

Onde eu Moro
Netflix

Há uma clara alusão a um mundo distante mesmo nas cenas onde as pessoas que poderiam estar agindo se portam como se o tivessem fazendo. Lidando com essas situações em tribunais rodeados pela segurança dos seus iguais, ou fazendo videoconferências onde a visão é restrita aos quadrinhos de uma webroom, há um distanciamento que permite trazer uma incômoda leveza aos diálogos, sorrisos até e muita falta de praticidade. Ora, as intenções existem, e cadê o sangue frio para a ação? No lugar disso, o discurso prestativo que não corrige o que está alastrando-se pelas ruas, estacionamentos e aumentando a superlotação de abrigos.

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Ao espectador, Kos e Shenk trazem a verdade inconveniente, ao nos transportar para o material humano que delineia a produção. São seus personagens vivendo suas realidades, tentando transpor o horror diário para uma vida onde o faz de conta é necessário de verdade, para aplacar um manancial de dores. São portas arrombadas demais para não permitir o vício, o desequilíbrio, a depressão, a violência e continua fazendo vítimas já exploradas pelo capitalismo, que é o que as levou na verdade até ali. Vítimas de um padrão que comunica um estupro e uma vida de esconderijos diante de um novo prédio sendo alicerçado, para gente rica, bonita e branca.

Onde eu Moro
Netflix

Mesmo querendo expor esse paralelismo do universo do sonho do cinema sendo invadido por uma realidade das mais dolorosas que não provoca movimentação efetiva, Onde eu Moro investe em beleza excessiva, emoldurando seu filme com uma estética de padronagem de abrir os olhos. Por trás da fotografia de contrastes, onde o esplendor do céu nunca encontra a crueza de um chão sem estrelas, reside um perigoso caminho exploratório imagético, mas que o roteiro consegue contornar por estar sempre interessado naquelas pessoas que são palpáveis e tão diferentes entre si, mostrando como suas verdades acabaram, apesar de tudo, levando-as a lugares de perda de humanidade.

Com momentos de sensibilidade, criada através da junção de uma situação extrema ao talento de seus autores em como desenhar cada novo recorte, Onde eu Moro aparenta ter tido tanto material a mais que resta ao público lamentar não assistir a um corte maior, onde possamos nos inteirar mais da política e dos seres ao seu redor, das vítimas e de tudo que lhes foi arrancado. Uma bela produção que deixa a certeza de que, em longa metragem, o resultado poderia ter sido ainda mais envolvente e com múltiplas possibilidades de brilho.

Um grande momento
A biblioteca, como refúgio

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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