Crítica | Festival

Laranjas Sanguíneas

O estado das coisas

(Oranges sanguines, França, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jean-Christophe Meurisse
  • Roteiro: Yohann Gloaguen, Jean-Christophe Meurisse, Amélie Philippe
  • Elenco: Alexandre Steiger, Christophe Paou, Denis Podalydès, Blanche Gardin, Lilith Grasmug, Lorella Cravotta, Olivier Saladin, Guilaine Londez, Vincent Dedienne, Pascal Tagnati, Fred Bli
  • Duração: 105 minutos

O velho mundo está morrendo, o novo está demorando a surgir e, nesse lusco-fusco, surgem os monstros

Antonio Gramsci

Diálogos e posicionamentos absurdos para os dias de hoje se repetem em Laranjas Sanguíneas. O primeiro deles, em uma mesa de jurados de um concurso de dança amador, está ali exatamente para nos ambientar e dizer onde vamos passar os próximos 105 minutos. Vivemos em um mundo que reprova e condena aquelas palavras, mas, em reuniões fechadas, segue as replicando, e, na vida, exercendo os mesmo conceitos e exclusões. São falas capacitistas, etaristas, misóginas, classistas que o roteiro de Jean-Christophe Meurisse, Amélie Philippe e Yohann Gloaguen reúne em pontos específicos de forma muito plausível para falar de uma França em crise.

Meurisse, que também dirige o filme, o faz em forma de mosaico, seguindo três plots com gerações diferentes. Temos a história do casal de idosos endividado que participa do concurso de rock para tentar saldar parte da dívida, o ministro da economia que tenta se livrar de um escândalo e uma jovem que está prestes a ter a sua primeira relação sexual. Unindo todos esses universos: um advogado alienado e figuras que retratam o que há de pior e mais degenerado na sociedade. Os tais monstros citados na frase de Gramsci que abre o texto e está no longa, os seres que surgem também como produto das circunstâncias.

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Laranjas Sanguíneas
Rectangle Productions/Mamma Roman

Envolvente, Laranjas Sanguíneas tem um ritmo frenético e muito de sua força vem da palavra dita e de seu humor ácido. A partir da metade, porém, se rende ao mais gráfico e, em um dos caminhos, indigesto, que brinca com os sentimentos do espectador quando faz punição e violência se concentrarem em um mesmo – e execrável – personagem. É como se outro filme começasse ali, e o visto até então precisasse ser ressignificado. Uma opção ousada, sem dúvida, mas bem executada, em especial pela mescla de ações constrastantes em intenção e sentido.

Com atuações de primeira linha, conscientes das intenções do diretor, em especial as de Alexandre Steiger (da série Marianne) como aquele que está fora do lugar, mas quer se sentir integrado e esnoba a família; Lilith Grasmug (Noites de Paris) como a jovem que tem uma força inesperada; e Lorella Cravotta (Românticos Anônimos) como a mãe que se transforma quando está dançando, além da da simpática ponta de Blance Gardin (France) como a ginecologista, o longa funciona do começo ao fim. Há questões com o excesso de violência, em especial a sexual, já que só se importa em evitar a exposição da cena com a mulher, e, mesmo que seu conteúdo politicamente incorreto seja completamente justificado, pode incomodar alguns.

Laranjas Sanguíneas
Rectangle Productions/Mamma Roman

Porém, Laranjas Sanguíneas é poderoso em sua mensagem e no retrato que faz da França atual e, mais do que isso, para além das particularidades políticas e econômicas locais, define traços da nossa sociedade. Uma sociedade adoecida e sem a capacidade de olhar para o outro sem preconceitos e sem o mínimo de empatia, com uma geração que se vê perdida entre o que já passou e o que está por vir, mas não tem a menor ideia de para onde ir.

Um grande momento
A reunião no ministério

[13º MyFrenchFilmFestival]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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