Crítica | Festival

Lavra

A lama dos dias

(Lavra, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Lucas Bambozzi
  • Roteiro: Christiane Tassis
  • Elenco: Camila Motta
  • Duração: 97 minutos

Os desastres ambientais criminosos contra a fauna e a flora provocados nos últimos anos pelos rompimentos de barragens mineiras não demorariam a ganhar forma cinematográfica, e se Walter Salles já tinha impressionado no curta ‘Quando a Terra Treme’, com uma ficção com ares fantasmagóricos filmados exatamente nos locais dos acidentes, o diretor Lucas Bambozzi filma um documentário com bases ficcionais ou… seria o contrário? ‘Lavra’, na competição do Festival de Brasília 2021, é uma produção que dribla a austeridade encontrada em documentários tradicionais com um mergulho na lama que ainda encharca inúmeras comunidades mineiras dilaceradas por perdas inaceitáveis e intermináveis.

O que Bambozzi, natural do estado afetado em questão, resgata com curiosidade é a alma da questão, indo a pormenores que parecem vagos mas que se comunicam com a estrutura do crime cometido por grandes empresas e Estado, conivente com a chegada exploratória. Seu olhar está menos interessado em recortar o que é ficcionalizado em toda essa história, e sim imbuir nesse seu projeto de falsa ficção o sentimento por trás da perda humana e natural causado pelo descaso generalizado. Com a pureza de aproximar-se em busca de pessoas que têm contato real com a tragédia, o diretor quebra a barreira não apenas entre ficção e realidade, mas entre dor simbólica e sofrimento factual.

A atriz Camilla Motta faz a voz desse longa, interrompida em uma existência exterior e arrastada de volta ao Brasil pela força da tragédia, e que vai mapeando aos poucos a destruição por trás que algo como o desaparecimento de um rio inteiro e todo o ecossistema em torno dele consegue operar em quem minimamente se importa. Seu primeiro movimento é entender as divisas em torno da tragédia, de maneira cartográfica, mas o humano invade sua pesquisa de maneira natural – ou do que parece ser natural para um documentário que, no fundo, é uma pesquisa viva em torno de uma população órfã de verbalização, carente de assistência e com um grau de devastação que começa bem antes da destruição final.

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A chegada das grandes mineradoras ao interior mineiro sempre é um aporte de progresso e emprego, mas na verdade seu significado passa longe da qualidade apregoada pelos panfletos sensacionalistas. Aumento da desapropriação de terras, aumento da prostituição local, aumento da violência generalizada, incluindo contra o corpo feminino, aumento de aliciadores criminosos, tais quais redes de traficantes, todos esses fatores são perpassados na produção e respondem pela trágica vivência da população bem antes do estouro de qualquer barragem, ou seja, a tragédia começa bem antes e nem depende de morte direta para se confirmar como tal.

A ‘Lavra’ interessa ouvir a voz dos que não conseguem projetar a própria ausência de palavras, mas também quer filmar o que é cinematográfico naquele ambiente. Bambozzi não se furta em correr com suas imagens pela ideia de aterrorizar o espectador tanto quanto a população filmada, então instiga em sequências noturnas a sombra de um medo constante contra quem tenta denunciar a preparação do mal em terras perdidas já de sua pureza. Quando precisa demonstrar essa situação com a figura de atores o filme não é tão bem sucedido quanto com a sugestão noturna de um perigo à espreita que pode surgir de qualquer canto, disposto a silenciar os pedidos de socorro.

Com essa dualidade de tratamento sendo equilibrada com destreza, Bambozzi faz de seu longa um tratado estarrecedor de um momento que parece estar na lista de eventos marcados para acontecer, e tornar a acontecer, infelizmente. Sua ideia de abraçar as imagens e os sentimentos reais e uni-los à intenções ficcionais nem sempre se sai com os melhores resultados, porque as intenções se cruzam e os desacertos se parecem evidentes, mas ao longo da produção o que é conseguido é de caráter superior e evidencia uma capacidade nossa de realizar híbridos de maneira cada vez mais inventiva, revelando um cinema de potência ainda não totalmente capturada.

Um grande momento:

A escuridão da noite na estrada 

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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