Crítica | Streaming

Lola e o Mar

Mergulho em si

(Lola vers la mer, BEL/FRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Laurent Micheli
  • Roteiro: Laurent Micheli
  • Elenco: Mya Bollaers, Benoît Magimel, Els Deceukelier, Sami Outalbali, Jérémy Zagba
  • Duração: 90 minutos

“I’ve been searching
For my wings some time
I’m gonna be born
Gonna be born
Into soon the sky
‘Cause I’m a bird girl”

Um mundo normativo, binário, feito para uma irmandade de homens sempre vai tentar sufocar aquelas pessoas que se sentem peculiares. Lola olha as estrelas e pede abrigo desse mundo tão carregado de ódio, incompreensão que enchem o ar de um sentimento de inadequação.

Heroína da sua vida, que busca se sentir bem sendo quem quis ser desde que nasceu, Lola vive mais uma jornada de amadurecimento, num filme de coming of age que pode não representar nada de novo na abordagem narrativa mas pela sensibilidade e inteligência emocional na construção de seu filme, o diretor e roteirista Laurent Micheli entrega uma experiência marcante em Lola e o Mar. Em exibição nos cinemas brasileiros o filme chega ao streaming como lançamento exclusivo pela Filmicca.

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Mya Bollaers, no seu primeiro papel no cinema é a força magnética, o cometa que faz sua passagem ao longo de Lola e o Mar – e sua sintonia com Benoit Magimel representa outro acerto. Duro, preconceituoso e frustrado, ele reaparece na vida da filha por ocasião de um luto. Lola vive amparada pelo amigo Samir (Samir Outalbali, de Um Conto de Amor e Desejo) que a levou para um abrigo, onde vive e aguarda a cirurgia de redesignação sexual.

Lola e o Mar
Divulgação

Lola e o Mar ganha então características de um road movie, com os dois personagens, pai e filha, empreendendo uma jornada até uma cidade do litoral flamenco para jogar as cinzas da mãe na praia. A raiva dela por ter sido expulsa de casa e a mágoa dele por ter sido “enganado” pela mulher que não abandonou o filho, mesmo já doente, colidem e pontuam os momentos de maior intensidade dramática do filme.

Por mais que o desenvolvimento e desfecho levem para lugares comuns, a jornada emocional é percorrida com graça. Lola, deixa uma carta para a mãe onde agradece por ela “ter ensinado a ver que as constelações tem formas mágicas e também a enxergar além das aparências”. A adolescente faz as pazes com o seu menino interior, amenizando as dores com as lágrimas do unicórnio que enxergou no céu como proteção. O pai, após o fogo baixar e sobrarem as cinzas da catástrofe familiar, vai entender que o Mar (em francês, Mer, mesma palavra usada para mãe) pode servir para cicatrizar, purificar e aceitar.

Para além da intérprete de sua protagonista ser transgênero, o cineasta belga teve mulheres trans como consultoras de roteiro, o que ajuda a imprimir um olhar apurado e afetuoso sobre as vivências que atravessam o corpo de Lola. Sua existência é negada por aqueles que a deveriam amar e abraçada por desconhecidas.

Um grande momento
Aprendendo a dançar durante o café.

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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