Crítica | StreamingDestaque

Lou

Laços

(Lou, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense, Drama
  • Direção: Anna Foerster
  • Roteiro: Maggie Cohn, Jack Stanley
  • Elenco: Allison Janney, Jurnee Smollett, Logan Marshall-Green, Ridley Asha Bateman, Matt Craven, Greyston Holt, Daniel Bernhardt
  • Duração: 105 minutos

Produzido por J.J. Abrams, esse Lou que estreia hoje na Netflix nunca tenta ser mais do que é, e de ter a honestidade que tem. Eu sei, esse meu texto não é novo, deve ter sido escrito umas 10 vezes só esse ano para o streaming, mas a verdade é que, no grosso das vezes, o que vemos sair da Netflix e irmãs são filmes como esse. Com alguma textura dramática, com tensão no ponto e uma condução adequada, temos um passatempo feito sob medida para o público médio que não quer pensar muito, e ainda assim se sentir muito inteligente diante de um produto de mercado. É uma receita de bolo de caixa, ainda que aqui e ali pareça ter sido recheado de doce de leite; se essa impressão é real ou não, vai do gosto de cada um por generalidades.

A trama ultrapassa os limites de ser básica: uma mulher moradora dos rincões escondidos e montanhosos claramente esconde uma vida secreta que virá à tona quando a filha de sua vizinha for sequestrada. Ela encampa uma caçada para achar a menina durante uma tempestade torrencial, e os segredos todos começam a sair dos armários. Parece que não apenas Lou não é bem o que parece, como o pai da menina dado como morto pode estar por trás desse sequestro. A Globo deve assistir a essas produções da Netflix e se revoltar, porque são títulos que ela exibiria à exaustão em inúmeras faixas cinematográficas. Ambas sabem que é exatamente esse tipo de produto que agrada ao público final. pouco afeito a produções muito elaboradas, mas que também tenham algum mínimo molho. 

Lou
Liane Hentscher/Netflix

O roteiro de Lou é escrito por Maggie Cohn e Jack Stanley, que enfatizam uns três ‘plots twists’ durante a produção. Nada revolucionários, tais viradas ratificam o quanto o filme quer falar sobre os laços que unem pessoas pouco interessadas em tê-los. Independente de serem mais ou menos previsíveis, tais conexões são também esquematizadas para que a situação também seja esclarecida e ganhe algum molho, mas principalmente para que seus personagens ganhem dimensões. É através desses caminhos que percebemos que essa mulher que já aparenta ter mais de 60 anos não passou pela vida escondida, mas acima de tudo se escondendo de papéis que não queria cumprir. Isso em graus diferentes é refletido nos outros dois protagonistas da produção, cada um deles em escalas diferentes do que poderia ser chamado de hereditariedade. 

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Para ancorar a dramaticidade que se desenha, o trio protagonista de Lou consegue mostrar força e estranheza ao mesmo tempo, porque precisamos descobri-los aos poucos. Allison Janney (Oscar por Eu, Tonya) está em mais um grande momento como a personagem título, uma mulher que obviamente traça estratégias para compreender seu papel no passado em reflexo ao que acontece hoje. Jurnee Smollett (de Spiderhead e Lovecraft Country) confirma seu status recente de revelação, com um talento desconcertante para demonstrar emoções à flor da pele em meio a um caos crescente. Logan Marshall-Green (de Upgrade) é o terceiro elemento que chega como desestabilizador, mas que guarda uma história de abandono que é o cerne da narrativa, e igualmente impressiona. 

Essa tentativa de reencontro emocional, que Lou transforma em cinema de gênero, é a chave para o sucesso de uma fatia cinematográfica que não pode sobreviver de catarse, exclusivamente. Ou melhor, essas mesmas catarses, ainda que criadas como gatilhos do suspense ou do policial, elas funcionam em sua plenitude se interligadas ao sensível. A diretora Anna Foerster, que é originalmente uma profissional de efeitos especiais e fotografia, aqui consegue transitar de maneira muito competente pelas imagens que cria, que primam pelo cuidado. Em especial o clímax, parece termos chegado até o fim da jornada para acompanhar o que é conseguido naquele momento, que salta aos olhos em relevo do resto do filme. Ali, Lou demonstra uma força imagética inesperada, que encerra o filme de maneira bastante elevada tecnicamente, ainda que narrativamente tudo siga no mesmo escaninho de sempre. 

Um grande momento

“me desculpe”

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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