Crítica | Cinema

Não Se Preocupe, Querida

De boas intenções…

(Don't Worry Darling, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Olivia Wilde
  • Roteiro: Katie Silberman, Carey Van Dyke, Shane Van Dyke
  • Elenco: Florence Pugh, Olivia Wilde, Chris Pine, Harry Styles, Gemma Chan, Sydney Chandler, Kate Berlant, Nick Kroll, Timothy Simons, Douglas Smith
  • Duração: 122 minutos

Nunca é bom sair do cinema com a sensação de que o filme tinha um grande potencial, seja de mensagem, seja enquanto obra. Começar um texto pensando “de boas intenções…” é terrível, mas é inescapável com Não Se Preocupe, Querida, segundo longa de Olivia Wilde, atriz que assumiu o posto e gerou muita expectativa depois de uma ótima estreia com a comédia juvenil Fora de Série. Muito além de todo o burburinho e fofoca que circundam seu novo trabalho, que nada interessam aqui, o resultado é atrapalhado em toda sua pretensão e ansiedade de vivências, influências e tentações.

Acompanhando o casal Alice e Jack Chambers, somos apresentados a um mundo perfeito, praticamente um clássico saído daqueles televisores antigos dos anos 1950, mesmo que com um pouco mais de álcool e picância, e, desde o começo, sabemos que algo está errado. Ainda que não tenha a mais óbvia formatação clássica temporal do roteiro, escrito a seis mãos por Katie Silberman e os irmãos Carey e Shane Van Dyke, tudo no longa tem jeito de requentado. A premissa é boa e a sua ideia de tentar encontrar uma nova maneira de alcançar o machismo e suas formas de apagamento, em especial em relacionamentos tóxicos, válida, mas o fato de estarmos diante de revisitações muitas vezes reembaladas com papéis que acabamos de rasgar, distancia e torna a experiência superficial.

Não Se Preocupe, Querida
Warner Bros. Pictures

Nessa superficialidade, patinando entre tantas lembranças que vão de Mulheres Prefeitas a Passageiros, esbarrando até em Matrix, sobram os equívocos de uma direção que não sabe muito bem onde depositar suas forças. Ora aposta nas interações, ora experimenta a ruptura com o mais tradicional; se por vezes se perde nas intenções da imagem — a fotografia é de Matthew Libatique, o cara por trás de filmes de Darren Aronofsky, entre eles Cisne Negro, Réquiem para um Sonho e π — e quer dar tempo ao suspense, em outros momentos aposta em truques de montagem e repetições para estimular a tensão gratuita. Fato é que falta vigor e, pior, não há equilíbrio ou unicidade nos caminhos que toma.

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E há esse gosto permanente de chiclete em uma obra que tem a intenção de estar num patamar de maior distinção artística, principalmente com as insistentes incursões visuais que buscam estabelecer uma posição em um hoje cultuado cinema de gênero que se afasta do óbvio. Cenas como a sequência final, que tem o seu valor enquanto thriller ainda que barato e manipulador, demonstram bem essa incapacidade de ruptura com a facilidade que permeia Não Se Preocupe, Querida. Apostas “ousadas” estão presas ao que de mais tradicional existe. Não que deixem de funcionar, o tempo de uso comprova que sim, mas seu uso só faz com que haja mais desgaste numa produção que indica se ter em tão alta conta, principalmente nesse aspecto.

Não Se Preocupe, Querida
Warner Bros. Pictures

Indo além da descontinuação e da autoimagem, Não Se Preocupe, Querida se atrapalha no próprio argumento. Vale lembrar novamente que ele não é nem de longe ruim e abre espaço para discussões e percepções interessantes, mas o filme está sempre tendo que se equilibrar entre as alegorias e a resolução de seu mistério. Pensando na experiência da sua realizadora, mas nunca achando que isso seria limitante, quando sai da simplicidade do indie juvenil e se depara com a possibilidade de construções visuais e sonoras mais elaboradas, Wilde quer experimentar demais, quer a ilusão do deserto, as paredes que se movem, a colagem, os ecos, chiados, e além. Seguindo o básico, quando algo sobra de um lado, de outro, falta. Tempo e esmero desperdiçados para impressionar fazem com que um ponto essencial seja tratado com menos atenção, e o desfecho vem apressado, como se precisando caber no espaço que lhe resta.

A sorte do longa é contar com Florence Pugh, que mesmo não recebendo todos os elementos, consegue buscar aquilo que é necessário para construir uma personagem crível e envolvente. Dona da cena nos universos em que transita, talvez ela seja uma peça mais importante nessa ligação do que as próprias tentativas da direção. Mas além disso, Não Se Preocupe, Querida tem um outro ponto: a representação do hoje. Em tela, a concretização do sonho da perfeição de acordo com os homens, e pensar que esse é o ideal deles, principalmente na realidade de avanços e conquistas de direitos das mulheres, faz sentido. A representação do patriarcado nessa volta no tempo, em roupas, cabelos, modos e discurso é interessante e seria ainda mais se realmente bem aproveitada. Pena que se vê perdida na profusão de ideias e experiências de um filme que não sabe muito bem onde se encaixar.

Não Se Preocupe, Querida
Warner Bros. Pictures

É aquilo, as intenções de fato estão ali e são as melhores, sem nenhuma dúvida, mas há muita coisa e vontade no entorno que acabam desviando as atenções. Antes fosse só de quem assiste, mas esse problema é de origem. O foco se perde na realização e o que chega ao espectador não traz exatamente a mensagem desejada. Ainda assim, tem lá algum suspense e, com certeza, vai atrair alguns com seu jogo.

Um grande momento
Recebendo para o jantar

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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