Crítica | Streaming

Mãe e Muito Mais

(Otherhood, GBR/EUA, 2019)
Comédia
Direção: Cindy Chupack
Elenco: Angela Bassett, Patricia Arquette, Felicity Huffman, Jake Hoffman, Jake Lacy, Sinqua Walls, Heidi Gardner, Stephen Kunken, Damian Young, Afton Williamson, Frank De Julio, Becki Newton, Mario Cantone, Emily Tremaine, Molly Bernard .
Roteiro: Mark Andrus, Cindy Chupack, William Sutcliffe
Duração: 100 min.
Nota: 3 ★★★☆☆☆☆☆☆☆

Mais uma vez, uma história que tem como pano de fundo mães e sua inabilidade em lidar com o crescimento e a independência dos filhos. Mãe e Muito Mais é a estreia na direção de longas-metragens de Cindy Chupack, poderosa produtora e redatora de séries televisivas. Apesar de todo o sucesso nas outras funções em Coach, Everybody Loves Raymond, Sex and the City e Modern Family, o filme distribuído pela Netflix é atrapalhado e mal resolvido.

Três mulheres já maduras, vividas por Angela Bassett, Patricia Arquette e Felicity Huffman, se ressentem do sumiço dos filhos no Dia das Mães. Todos os anos, na data, se reúnem, falam sobre a vida e o que sentem. Desde o começo, algo está errado. Uma estética quadrada e muito próxima à televisão dos anos 90 acentua a falta de conexão entre as três atrizes. É como se cada uma estivesse em um registro, sem compatibilidade de timing ou estilo, embora individualmente funcionem.

Muito do desacerto vem do próprio roteiro, assinado também por Chupack ao lado de Mark Andrus e William Sutcliffe. A estereotipização acentuada deixa a construção daquelas personagens na superfície e cabe a cada uma das atrizes tentar salvar a sua participação. A pré-determinação (e insistência) em traços clichês, como os da egocêntrica bem sucedida Helen, da superprotetora casamenteira Gillian e da ingênua esperançosa Carol é incansável e causa uma antipatia às protagonistas contrária à ideia do próprio filme.

Um outro incômodo vem na representação dos filhos, vividos por Jake Hoffman, Jake Lacy e Sinqua Walls, também estereotipadas mas ainda mais irreais, e sem que o trio de atores tenha a mesma habilidade das mulheres. Pouco ajuda o fato de que eles tenham muito menos tempo de tela juntos. Para ser justa, neste afastamento, dois personagens conseguem despertar alguma empatia: a viúva Carol e o deprimido Daniel.

Entre muitos tropeços, o resultado parece sair de uma divisão: a roteirista mulher escreveu aquilo que enxerga dos filhos e os roteiristas homens, aquilo que enxergam das mães, em representações preconceituosas, generalistas e, possivelmente, resultantes de algum ressentimento.

A decisão de representar o todo por uma parte está também nas situações satélites e na determinação visual de alguns dos personagens coadjuvantes, como aqueles que moram com Paul, a “namoradinha” de Matt ou o blind date de Daniel. Ainda que desconjuntado, porém, não é um filme custoso se assistido superficialmente.

Mas qualquer olhar mais atento demonstra que, para um filme família que busca no humor a sua legitimação, Mãe e Muito Mais está um tanto atrasado quanto ao momento em que é realizado. Há humor mais inteligente que pode ser construído tendo como pano de fundo essas relações familiares que são tão universais. As séries da própria Chupack podem provar isso.

Um Grande Momento:
Nada tanto assim.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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