(mother!, EUA, 2017)
Horror
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Kristen Wiig
Roteiro: Darren Aronofsky
Duração: 121 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Para começar a falar de mãe! é importante destacar que o longa tenta, através da ultra exposição, ser um filme anti-machista. A tentativa é válida, porém não se concretiza. A construção passa justamente pela composição social que quer demonstrar e, impregnada por esta mesma sociedade, escolhe as metáforas equivocadas e a representação, em suas literais transparências, que reafirma o que existe hoje.

Explicitada a análise social, parte-se para o filme, a loucura frenética de Darren Aronofsky em recontar a história da “criação”, como escrita pela tradição cristã. Ali estão, no princípio de tudo, um homem e uma mulher. Ele poeta e ela uma espécie de arquiteta, engenheira e faz tudo.
Enquanto ela cuida da casa e de sua recuperação – já que o local sobreviveu a um incêndio -, ele passa os dias buscando uma inspiração que não chega. Até que resolve abrir a porta do local para estranhos.

Aquela casa é, na verdade, o mundo e aqueles dois são Deus e Deusa, os responsáveis pela criação de tudo. Ao transformar o Deus uno das crenças em uma dupla, composta por um homem e uma mulher, já subverte qualquer entendimento prévio do que se vê. Demonstra a impossibilidade da crença extra-fílmica e cria soluções para tornar aquele conto factível. Com um Deus apático, machista, ególatra e dependente, critica e tenta explicar toda uma história de exclusão e inferiorização balizada pela religião.

O que se vê na tela recorre a duas fontes: todas as histórias, modernizadas e realocadas, são conhecidas por quem teve uma aproximação mínima com a Bíblia ou as religiões cristãs. Conhece-se aqueles visitantes, suas histórias, seu futuro e onde tudo aquilo vai chegar. A segunda fonte é o aqui e o agora, numa espécie de justificação comportamental e manutenção de padrão.

O tratamento àquela Deusa equipara-se ao tratamento social recebido por qualquer mulher e, ao mesmo tempo, é no apagamento e na ridicularização daquela figura que essa manutenção se vê num estágio de desesperança e continuísmo, num recomeçar infinito.

Aronofsky fala desse apagamento de uma maneira contraditória, e acerta ao flertar com o horror como meio de traduzi-lo. Na super exposição em close-ups exagerados e sufocantes coloca o público sempre próximo demais de sua protagonista, numa negação ao seu apagamento e no entregar da história para aquela que, no texto que o inspirou, ou não existe ou nunca é vista de perto, sendo sempre de quem se fala, mas nunca a que faz.

O que se vê, com uma câmera sempre nervosa, é aquela mulher ser repetidamente excluída, destratada, rejeitada, mesmo que seja ela figura fundamental para que todo aquele universo exista. É ela quem constrói, cuida e, no fim das contas, a única realmente capaz de gerar algo. Essa superexposição é incômoda, e pode não se justificar para muitos, mas não deixa de ser uma representação dessa dinâmica social que existe até os dias de hoje.

Mais do que isso, mãe! vai atrás dessa construção coletiva, de como todo esse jogo de diminuição-opressão está inserido como absoluto, válido e aceito por aquelas pessoas, num eterno looping de contaminação e perpetuação, algo muito presente, por exemplo, na personagem de Michelle Pfeiffer, como um produto diminuído por aquele ambiente e, ao mesmo tempo, uma defensora de sua manutenção.

A narrativa leva toda aquela história ao apocalipse, depois de dedicar sua segunda parte a uma espécie de Novo Testamento. Com a chegada do filho de Deus diversa daquela da Bíblia cristã, abarca outras religiões e encontra justificativas para extrapolar em belicismo e – ainda mais – em cenas de violência gratuita, que têm como único objetivo chocar ainda mais quem assiste ao filme.

Há, portanto, muitos equívocos e exageros em mãe!, mas, ainda assim, a reconstrução da história como uma explicação para o que existe nos dias de hoje é interessante, e tem seu valor dentro da lógica construída pelo cineasta.

mãe!, porém, perde muito do seu brilho quando se olha com mais atenção para o final que, como se justificasse a perpetuação do machismo, encerra aquele ciclo reafirmando o pior de todos os estereótipos, deixando claro que é ela quem sempre dará motivo ao recomeço da mesma história, num jogo de culpabilização que não é novidade para ninguém.

Mas Aronofsky, e toda sua equipe, assim como sua versão de Eva, são também frutos dessa sociedade e, por isso, por mais que se tente, é tão difícil pensar no diferente. Essa é a discussão do primeiro parágrafo, que está em todo o texto e vai muito além da análise fílmica, chegando a partes muito individuais e a ideologias que, obviamente, percorrem o destrinchar da obra, mas não são suficientes para desmerecê-la enquanto produto artístico. Porém, o questionamento é sempre válido e é assim que as coisas mudam, seja na tentativa do realizador ao compor sua obra, ou na contradição de quem a analisa.

Um Grande Momento:
Sentindo a casa.

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