Crítica | CinemaDestaque

Marighella

O discurso cinematográfico

(Marighella, BRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Wagner Moura
  • Roteiro: Felipe Braga, Wagner Moura
  • Elenco: Seu Jorge, Bruno Gagliasso, Ana Paula Bouzas, Bella Camero, Herson Capri, Humberto Carrão, Tuna Dwek, Adriana Esteves, Guilherme Ferraz, Carla Ribas, Luiz Carlos Vasconcelos, Henrique Vieira
  • Duração: 155 minutos

A estreia de Wagner Moura na direção, o aguardado Marighella, não se abstém de gatilhos tradicionais para tratar uma biografia histórica. O arco dramático que aciona o filme e perpassa a produção, que tem na ficção seu ponto de partida para alavancar os acontecimentos posteriores; o embate bem marcado entre herói e vilão, que constrói uma perseguição tanto real quanto psicológica, e o mapeamento temporal difuso, que não consegue definir o contexto de sua linha, fazem parte de um reconhecível lugar de conforto para a uma primeira investida segura do outro lado das câmeras. Tirando isso e outros rápidos momentos de excesso de contemporaneidade textual, surpreendente é a palavra que pode ser utilizada para definir o longa.

Do plano sequência inicial, onde a câmera vasculha um vagão de trem dos anos 1960, que se transforma em outros vagões contíguos, que se transforma em uma locomotiva da época, que evade do espaço cênico para o exterior e torna a entrar, essa é a primeira incursão do jovem cineasta no exercício, que torna a acontecer, mas que aqui, em específico, espanta pelo acerto coletivo. Há em toda sua extensão uma intencionalidade pela excelência que não abre mão de uma proposta de delicado naturalismo em meio à histeria estrutural, uma complexificando e outorgando a outra. A certeza de que vemos uma versão dos fatos e não os fatos ipsis litteris é aguçada por essa visão cinematográfica dos eventos, plenos em sua grandiosidade.

Marighella (2019), de Wagner Moura
Divulgação

Moura compreende a necessidade de criar um arcabouço de qualidade ao seu protagonista, e confere humanidade aos seus coadjuvantes não apenas graças ao seu elenco bastante acima da média, mas dando contornos e pitadas a personagens que poderiam ser mal situados, ou apenas frouxos. Grande parte do grupo de coadjuvantes do filme tem uma história pregressa que é adentrada em algum momento, e aos que não tiveram essa abordagem específica, não falta DNA, como se suas identidades fossem definidas essencialmente pela paixão que demonstram ter pelo que fazem, dos guerrilheiros aos seus algozes, todos imersos em verdade cênica, pro bem e pro mal.

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Um ponto de inflexão que nem sempre funciona, conferindo um lugar desconfortável narrativamente, são os momentos onde o filme tenta se comunicar com o hoje. Ainda que um filme, por mais histórico que seja, habite essencialmente no seu tempo de produção, algum excesso de “quebra de quarta parede verbal”, com frases que transportam a nossa década para os anos 60, acaba por deslocar demais nosso ouvido para um tempo embaralhado na compreensão. Nesse momento, seu abraço no que é acima de tudo uma obra cinematográfica orgulhosa de sê-lo, não deveria ter deixado tão evidente sua porção comunicativa com nossa sociedade atual.

Ainda assim, são esses ecos com o presente que também carregam no filme essa roupagem de artifício, sem se importar com uma dita verossimilhança com o que poderia ser identificado como uma obrigação com a naturalidade. Marighella se constrói como um thriller político, com tintas de suspense bem apresentadas, e por isso tudo seu exagero é uma escolha consciente, encaixa com inteligência várias decisões criativas. Enquanto conta uma fatia da História do país que se esfacela novamente por conta de golpes e governos degenerados, Moura se empenha em conceber o máximo em construção de gênero possível, da biografia em processo histórico até a tensão do suspense.

Marighella (2019), de Wagner Moura
Divulgação

Na frente das câmeras, absolutamente ninguém deixa de brilhar, do protagonista Seu Jorge até seu nêmeses Bruno Gagliasso em duelo à distância, passando pelas formidáveis participações de Humberto Carrão, Carla Ribas, Herson Capri e Luiz Carlos Vasconcelos até chegar em uma contida Adriana Esteves e na oportunidade rara para Ana Paula Bouzas brilhar. Esse elenco está à disposição de um nome – Wagner Moura – que é generoso com todos, mas que entrega um produto onde o seu próprio talento em estreia cria uma expectativa para a nova cadeira onde passa a sentar, cadeira essa aqui tratada com reverência por seu autor.

Marighella é sim um veículo para propagar ideias que parecem esquecidas hoje, mas que sempre foram salvas pelo audiovisual. Sem esquecer sua principal razão de existir, se consolidar enquanto potente linguagem cinematográfica, Moura e os seus saem às ruas sem se preocupar com o que dirá o “outro lado”. Sua coragem em expor as qualidades e os defeitos de seu personagem-título e de quem o cerca eleva o material narrativo em cena, que encontra valor referendado em suas escolhas imagéticas.

Um grande momento
A abertura

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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