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Meia-Noite em Paris

(Midnight in Paris, ESP/EUA, 2011)

Comédia
Direção: Woody Allen
Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Nina Arianda, Carla Bruni, Yves Heck, Alison Pill, Corey Stoll, Tom Hiddleston, Sonia Rolland, Kathy Bates, Marcial Di Fonzo Bo, Marion Cotillard, Adrien Brody, Adrien de Van, David Lowe
Roteiro: Woody Allen
Duração: 94 min.
Nota: 10 ★★★★★★★★★★
Curioso como sentir saudade de alguma coisa desconhecida pode ser algo tão comum, tão fácil de encontrar por aí. Músicas, figurinos e comportamentos de épocas passadas exercem um certo fascínio em todos e são mais atraentes do que o cotidiano. Mas como não ser, quando problemas reais e a mesmice do dia-a-dia são comparados com a aura mágica do desconhecido?

O tema, interessante por si só, rende uma história maravilhosa nas mãos de Woody Allen (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), um diretor que gosta de analisar sentimentos humanos, principalmente os seus. Porque todo mundo que conhece o cinema de Allen sabe que ver um filme dele é vê-lo em cena, mesmo que interpretado por outra pessoa. Aqui, o alterego do diretor é Gil, um nostálgico escritor que sente ter nascido na década errada, quer morar em Paris (que, segundo ele, é muito mais bonita durante a chuva) e sonha em escrever um romance como os que há muitos anos não são lançados.

Seu presente não poderia ser mais inadequado. Ele está prestes a se casar com Inez, uma patricinha mimada que sonha em morar nos condomínios caros de Malibu e não tem laços com a arte literária. É pelo amor que sente por ela que Gil atura o menosprezo do sogro, a torcida contrária da sogra e a quase insuportável convivência com o prepotente e falastrão Paul.

Uma noite, perdido pela cidade, Gil é convidado a entrar no mundo de seus sonhos e conhece a Paris que viu nascer os nomes grandes da arte do século passado. Conversa com Ernest Hemingway, ouve Cole Porter, fica amigo de F. Scott e Zelda Fitzgerald , conhece os delírios de Salvador Dalí, dá dicas a Luis Buñuel e entrega seu manuscrito para ninguém menos que Gertrude Stein. Sem falar no flerte com Adriana, namorada de pintores e que, no filme, é uma espécie de personificação da saudade de tempos idos.Entre tantos personagens interessantes, o que mais brilha é Paris. A beleza da cidade e o seu astral artístico-cultural contagiam os espectadores, tão confortáveis e fascinados, que o fato da narrativa ser inacreditável se torna insignificante.

Difícil é não sentir vontade de voar para a capital francesa na primeira oportunidade. Allen, que sempre filmou Nova York lindamente, prova que sabe aproveitar o que uma cidade tem de melhor para oferecer. Cidade dos sonhos de muitos, nada mais justo do que Paris ser a lotação do título que parece ser o mais unânime de todos os filmes do diretor.

O roteiro é delicioso e funciona tanto para os mais conhecedores dos artistas citados, como para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de conhecer todos eles. Allen não faz a menor questão de explicar muito como funcionam as coisas que está contando e, de verdade, isso não era mesmo importante.

Owen Wilson (Como Você Sabe) está sensacional como Gil. Ele entrega ao público um personagem que, mesmo impregnado de características de Woody Allen, é ímpar em sua completude e que tem muito a dizer, seja calado, com suas caras e bocas, ou discorrendo sobre suas crenças e desejos. A Gertrude Stein de Kathy Bates (Louca Obsessão) também é ótima e parece ser tão decidida e durona como a descobridora de talentos da Rue de Fleures.

Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor) e Rachel McAdams (Uma Manhã Gloriosa) estão encantadoras como Adriana e Inez, as duas mulheres da vida do protagonista e personificações da atração do desconhecido e da frustração daquilo que já se conhece bem. As participações de Michael Sheen (Frost/Nixon) como o intolerável Paul, Carla Bruni (Paparazzi) como a guia do museu, Alison Pill (Scott Pilgrim Contra o Mundo) como Zelda Fitzgerald e Adrien Brody (O Pianista) como Dalí também merecem destaque.

Divertido, interessante e inteligente, Meia-Noite em Paris é um presente de Woody Allen para todos que, pelo menos uma vez, sentiram saudade daquilo que não tiveram chance de viver ou se apaixonaram por algo antes de conhecê-lo. E, como todo bom presente cinematográfico, é um filme que atrai a nossa atenção sem muito esforço e não acaba logo depois dos créditos finais.

Indispensável!

Um Grande Momento

Sugerindo O Anjo Exterminador.

Logo-Oscar1Oscar 2012
Melhor Roteiro Original

Links

IMDb Site Oficial [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=EsjTTNE0LkM[/youtube]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

2 Comentários

  1. O que Woody fez com NY em “Manhattan” (que, para mim, com relação à cidade que tenho o sonho de conhecer, foi amor à primeira vista), ele faz aqui com “Midnight”. Nostálgico e um verdadeiro guia turistico não só com as belezas das ruas de Paris, mas com o teor cultural que essa cidade tem, que muitas vezes é meio esquecida por turistas que só estão lá para consumir Dior, por exemplo. rsrsrs. Belíssimo filme! ;)

  2. Este é um dos melhores filmes do ano realmente, adorei a “viagem” pela cidade luz.

    Eu sou desses nostálgicos (não tanto por sentir saudades de coisas que não vivi) e Woody Allen ainda conseguiu me dar uma afilnetada em determinada parte do filme, é excelente sem duvidas. Magico e divertido.

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