Crítica | Festival

Meu Querido Supermercado

(Meu Querido Supermercado, BRA, 2019)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Tali Yankelevich
  • Roteiro: Tali Yankelevich
  • Duração: 80 minutos
  • Nota:

A jovem diretora Tali Yankelevich estreia na direção de longas com um surpreendente petardo, de aparência simples mas desenvolvimento complexo, acerca de um microcosmos recluso para literalmente elocubrar reflexões sobre a vida, seus sonhos e mistérios, as idiossincrasias particulares, encapsuladas em um… supermercado. Parece exótco, em tese deve ser, mas a forma como é descortinada as ambiguidades dos habitantes de seu espaço é rapidamente enriquecida por uma aproximação de aparência banal, mas que resvala no filosófico, sem que nunca pareça desagradável ou menos instigante do seu todo.

Na abertura, já temos uma pista do que gradativamente Meu Querido Supermercado irá se tornar, quando Tali escolhe uma agência em construção de uma rede. Seu prólogo constitui, portanto, o nascimento do espaço cênico, desde o mais profundo azulejo. A tinta, os fios, as lâmpadas iniciais, todo o ambiente assepticamente branco, é o início de tudo, que se confunde também com uma maternidade bizarra onde chegam à existência corredores, prateleiras vazias, os primeiros habitantes… ops, então Tali não está construindo um ser vivo, mas um planeta – e as falas finais, sobre a “árvore da vida” e suas definições religiosas e científicas nos certifica disso.

Então o planeta Verano, operado pela deusa Tali, pé ante pé apresenta seus habitantes-personagens, que comporão um mosaico de aspirações a um grupo de profissionais que tem uma essencialidade adquirida pelo filme (e outorgada pela mínima memória que temos a ida a qualquer mercado), mas que nunca são reparados em suas humanidades, para além da maquinária – quem nos serve pão, queijo, segurança, quem nos assessora ao final, também estão vivos. E a fantástica fala sobre como um deles já transou com clientes que passaram por ali, deixa claro adiante do lugar onde eles estão colocados – em mais uma prateleira.

São funcionários e também produtos, não há um acesso à vida real: a classe operária raramente irá ao paraíso, a não ser que como novos materiais de compra e descarte. Em determinado momento, Kelly fala que não sentirá falta de Rodrigo quando ele arrumar um novo emprego, “no máximo essa falta será sentida por 10 dias”; ainda que o filme embale essa cena com melancolia e descrença das palavras da mesma (que, em sua porção personagem desenvolvida pela deusa Tali, está sim envolvida por seu colega), fica clara como a mecanização das relações não se dá apenas de cliente a funcionário, mas de parte a parte.

Meu Querido Supermercado

Meu Querido Supermercado tem seis personagens particularizados: um caixa, um padeiro, uma agente de segurança, um empilhador, e dois atendentes /repositores. Com toda certeza alguns mais foram descobertos, ouvidos e filmados, mas tal como Cristof, o diretor-Deus de O Show de Truman, Tali escolheu precisamente seus nomes com o intuito de reproduzir as falas que seu próprio “show” precisa para reverberar – suas relações íntimas, seus modos particulares, sua visão de futuro, seus planos e seus redutos nunca devassados, provavelmente nem pelos mesmos. Os corredores do Verano compreendem então nova metamorfose – de recém-nascido a planeta, de planeta a divã, e variando entre essas e outras personas de sua argamassa.

Ao invadir as paredes de um lugar de passagem para muitos e transformá-la aos olhos desses mesmos muitos, Meu Querido Supermercado acaba por nos presentear com um sexteto que queríamos conhecer mais, nos envolver mais, acarinhar mais. Isso é o que de melhor uma cineasta poderia fazer – Tali nos faz amar os moradores do seu planeta, nos faz sentir saudades deles, e o melhor de tudo, nos faz conhecer pessoas que não está ali para serem consumidas. Com um roteiro que escaloneia vários segmentos em seu universo e amplia o escopo para além de suas atividade, sua diretora entrega ao espectador uma experiência que agrega além de tudo várias emulações de gêneros cinematográficos – o policial, o drama, a comédia romântica, o terror, o experimentalismo. Uma experiência praticamente completa, de roteiro impressionante, que nos acolhe e transforma seis pessoas comuns em mais que personagens – já estou com saudades dos meus novos amigos

Algo mais?

Um grande momento
Rodrigo (essencialmente ele) e Kelly.

[25º É Tudo Verdade]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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