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Mudança Mortal

Um casal que merecia mais

(Aftermath, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Peter Winther
  • Roteiro: Dakota Gorman, Peter Winther
  • Elenco: Ashley Greene, Shawn Ashmore, Sharif Atkins, Britt Baron, Diana Hopper, Jamie Kaler, Travis Coles, Susan Walters, Ross McCall, Jason Liles, Alexander Bedria, Soraya Kelley, Sandra Prosper, Juliette Jeffers
  • Duração: 114 minutos

É minimamente promissor que Mudança Mortal se inicie com um quadro tão amplo a respeito de um casal, que passam em poucos minutos por múltiplas fases de um relacionamento. De completos desconhecidos ao casal em crise por conta de uma traição, o filme organiza em cena alguns momentos sequenciais dos arcos dramáticos pelos quais os protagonistas estão inseridos quando o filme os encontra. Feridos e fragilizados, Natalie e Kevin tentam começar uma vida nova entre muitos estágios, jovens demais para terem um casamento desgastado e magoados demais para se permitirem novas chances, a abertura do longa sugere que sua relação está ruindo, apesar do amor.

O produtor Peter Winther se arrisca na direção pela segunda vez, e mesmo que o relevo de sua produção sugira algo com complexidade e substância, a falta de experiência e o interesse por produzir um filme com mais potencial do que seria capaz de entregar emperram o filme das suas reais condições, de talvez ser um exercício de gênero interessante. As pretensões de dramaturgia não são relacionadas ao que o filme parece mecanicamente capaz de produzir ou entregar, e na ânsia de tentar realizar as fatias que compõem sua ilustração narrativa, o filme acaba se tornando exaustivo e prolixo, sem propósito.

Ou seja, o filme se dedica ao que não é necessário, gastando tempo com personagens e situações clichês (a irmã da protagonista, por exemplo), ou questões que parecem cortina de fumaça vazias, que, inexplicadas, só servem para piorar o produto final; porque a mãe de Natalie dá as caras, afinal? Ao tentar dar ainda mais contornos a apenas uma personagem, onde eles acabam não levando a lugar algum além de uma cena de conflito estapafúrdia, o filme parece demonstrar uma falência de talento para desenvolver o que parece claro na teoria, ou seja, o famoso passo maior que a perna.

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Mudança Mortal teria que se valer na sua tentativa de construção dramática, já que na esfera estética o filme não apenas não se arrisca, indo apenas na condução óbvia e acidentada, e acaba cometendo inúmeros pequenos erros bobos, de continuidade (uma cena em especial, onde uma tesoura se move de posição mais vezes do que deveria), de montagem, de estrutura imagética. Como se aventa uma ideia menos robotizada da ideia do suspense, partindo em direções dramáticas que explorem suas vertentes, o roteiro de autoria de Winther e Dakota Gorman decepciona por apresentar proposições não alcançadas de capacidades.

O casal protagonista é experiente, tanto Ashley Greene (da saga Crepúsculo) quanto Shawn Ashmore (da saga X-Men) seguram as verdades de seus tipos com qualidade, sem exageros dramáticos, mas deixando o gênero fluir pela dramaticidade de seus contornos. Mas suas presenças não são suficientes para dar ao longa a experiência completa, além dessa pretensa dramaturgia que não se conecta de forma fluida com o todo. Além disso, o resto do elenco não é tão eficiente e nem tem material suficiente para elevar-se; na verdade tudo que não diz respeito ao casal protagonista parece um adendo forçado e sem vida, oco de aptidão.

A sessão de Mudança Mortal parece, afinal, um desperdício quando analisamos suas ideias isoladas e o que se realiza a partir do que é concreto em cena é medíocre cinematograficamente, sem dignidade para o que poderia ter sido realizado, com a narrativa que se detinha. O que resta para assistir é uma produção que se desenha muito mais rica do que consegue elaborar, deixando no caminho uma série de enviesamentos dramáticos repletos de textura, mas que vazam por fim em lugar cuja moldura se apresenta muito melhor que o conteúdo.

Um grande momento
Do primeiro encontro até o consultório da terapeuta

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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