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Mulheres ao Poder

As nuances do empoderamento

(Misbehaviour, GBR, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Philippa Lowthorpe
  • Roteiro: Gaby Chiappe, Rebecca Frayn
  • Elenco: Keira Knightley, Gugu Mbatha-Raw, Jessie Buckley, Keeley Hawes, Phyllis Logan, Lesley Manville, Rhys Ifans, Greg Kinnear, John Heffernan, Suki Waterhouse, Ruby Bentall, Alexa Davies, Lily Newmark, Loreece Harrison, Clara Rosager, Emma Corrin, Jo Herbert, Eileen O’Higgins
  • Duração: 106 minutos

Mulheres ao Poder, longa-metragem dirigido por Phillipa Lowthorpe, é baseado em fatos reais ocorridos em 1970, quando ativistas do Movimento de Liberação das Mulheres protestaram na competição Miss Mundo, contra a objetificação do corpo feminino e o patriarcado.

A comédia dramática britânica é capaz de envolver quem assiste ao filme não apenas pelo discurso das ativistas, ou pela sensação inenarrável das primeiras candidatas negras ao Miss Mundo, mas também pela forma que demonstra, de forma falada ou silenciosa, os sentimentos de cada personagem.

As atuações parecem ter sido treinadas por anos a fio: cada personagem real representada em Mulheres ao Poder tem uma riqueza de detalhes que evidencia o comportamento mais ou menos agressivo, as aspirações, os medos e as frustrações.

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Se Keira Knightley conseguiu ser a sedutora Elzabeth Swann em Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, em Mulheres no Poder ela rompe totalmente com essa imagem, e vem a ser a ativista Sally Alexander, porta-voz do movimento cujo grito de guerra evidencia a necessidade de se romper com o padrão machista de imposição de beleza feminina: “Eu não sou feia. Eu não sou bonita. Eu estou com raiva!”

Mulheres ao Poder

Sally é a ativista mais recatada. Criada na burguesia, ela está cansada de ser vitimizada pelo sistema patriarcal opressor, que a julgou por ter se divorciado e não querer ser dona de casa, ou por querer estudar, pelo simples fato de ser mulher. Foi assim que, inicialmente, ela decidiu mudar o sistema de dentro pra fora, ingressando na cadeira de História, em uma Universidade composta majoritariamente por homens brancos, mas depois se juntou ao grupo “rebelde”, para ver mudanças mais efetivas.

Ao lado de Keira, Jessie Buckley, cantora e atriz irlandesa, também fez uma excelente atuação de Jo Ann Robinson, a ativista que tinha ideias mais rebeldes e anárquicas, sendo até mais agressiva e incisiva em seus posicionamentos, mantendo o discurso de que não lida bem com ordens.

Aliás, se a mulher luta contra o sistema patriarcal, e recebe ordens que, majoritariamente, são criadas por homens, será que ela deve simplesmente acatá-las? Errada Jo não está…

A seguir, eu já poderia comentar as incríveis atuações das Misses Granada e Sul da África, mas preciso dar destaque à atuação de Lesley Manville como Dolores Hope. Os olhos sofridos e cansados de Lesley, além de seu sorriso debochado, foram suficientes para que pudéssemos compreender o quão exausta estava Dolores à época.

Mulheres ao Poder

Presa em um matrimônio de fachada, somente para cumprir as expectativas morais e sociais de uma sociedade machista, Dolores passou pela dor de um escândalo envolvendo seu marido, Bob Hope (Greg Ginnear), que a traiu com a Miss Mundo de 1961 e, apesar de ter prometido que respeitaria sua esposa e não participaria novamente do evento, continuava flertando com todas as mulheres com quem tinha oportunidade, e aceitou, sem pestanejar, o convite ao evento de 1970.

Lesley Manville conseguiu, com maestria, representar as dores das decepções de Dolores, sua frustração com seu marido e com seu casamento e, mais do que isso, um pingo de felicidade e esperança que se acenderam em seu peito quando percebeu que algumas mulheres estavam tentando romper com o sistema que outrora a prendeu nesse matrimônio desrespeitoso.

Com ênfase, agora, posso falar da atuação de Loreece Harrison, que deu luz à Pearl Jansen, atualmente cantora, que participou do evento Miss Mundo, em 1970, como a primeira mulher negra a representar seu pais, a África do Sul, ainda sob o regime do Apartheid.

Loreece conseguiu ir além da beleza da Miss África, para evidenciar o seu medo, que dividia lugar em seu coração com sua esperança e felicidade, por estar representando o país, enquanto mulher negra, em um concurso de beleza, porém sabendo que tinha limites que não poderiam ser ultrapassados: como falar de seu país, nem tampouco ser vista com alguns repórteres.

Mulheres ao Poder

O sorriso inocente que Pearl Jansen muito provavelmente deu várias vezes, durante a preparação para o evento, sendo tratada como igual às demais mulheres brancas, em contraste com seus olhos preocupados e tristes, pelo medo de fazer algo errado e nunca mais poder ver sua família foram trazidos à telona por Loreece, a quem o papel parece ter caído como uma luva.

A seguir, há que se destacar a atuação de Gugu Mbatha-Raw, como Jennifer Hosten, cuja esperança de ganhar a competição era maior do que a de Pearl, haja visto que, enquanto Pearl sabia estar ali somente por politicagem, para que houvessem mulheres negras representando seu país, Jennifer esperava e acreditava com o coração que o título garantiria que crianças negras se sentissem representadas e também pudessem se sentir bonitas.

As cenas de Mulheres ao Poder que contam com a presença de Gugu deixam transparecer a maturidade de Jennifer que, enquanto mulher negra, não estava ali somente para saciar os desejos sexuais de homens que compusessem a mesa de jurados, mas sim para lutar por uma causa maior, garantindo seu espaço, enquanto mulher e negra, no mercado de trabalho e no mundo da beleza.

Suas falas evidenciam que Jennifer era uma mulher firme em suas decisões, e disposta a batalhar por suas convicções, ainda que, para isso, tivesse ela mesma que fazer parte do sistema que a reprimia, subjugava e lhe dizia que ela não poderia ser considerada bonita, por não se encaixar no padrão branco.

Nesse sentido, o encontro de Sally e Jennifer, no banheiro do evento, tal qual retratado no filme, faz com que o público entenda que essas mulheres não eram tão diferentes em seus objetivos de mudar o sistema de dentro para fora: enquanto uma entrou na academia para garantir que as cadeiras não fossem ocupadas apenas por homens, a outra entrou na competição Miss Mundo, para garantir que o padrão de beleza não fosse apenas branco.

Mais do que isso, é esse encontro em Mulheres ao Poder que evidencia que a luta feminista só existe se for antirracista: não há que se falar em preservação dos direitos das mulheres se nós mesmas, mulheres, subjulgamos outras irmãs em razão de sua cor.

Não há que se falar em “luta contra a objetificação do corpo feminino” se nós, mulheres brancas, permitimos, enquanto sinhás, que outras mulheres fossem escravizadas, para fazer um trabalho braçal, para satisfazer a lascívia dos maridos donos da Casa Grande, e para servirem de “amas de leite” de nossos filhos, como se seus corpos pretos servissem a nosso bel prazer.

Mulheres ao Poder

E como falar em “igualdade trabalhista” entre homens e mulheres, se a maioria das mulheres negras ainda trabalha em posições inferiores, criadas por um padrão social que nós mesmas, mulheres brancas, fazemos questão de manter, para garantir que a mulher preta esteja à nossa disposição, trabalhando em nossas casas, e deixando os próprios filhos sozinhos, para cuidar dos nossos, enquanto nós exercemos trabalhos para os quais buscamos igualdade salarial? 

Não há que se falar em “feminismo” se não se observa a realidade da mulher preta. Não há que se falar em “igualdade” se parcela do grupo que pede tal igualdade não se considera igual às próprias irmãs, que as desprezam e menosprezam, em razão de sua cor.

A luta feminista contra o patriarcado deve ser para todas as mulheres. Enquanto nós mesmas disputarmos entre nós, por imposições machistas; enquanto nós mesmas descredibilizarmos a luta de outras irmãs, em uma competição de ego; e enquanto nós mesmas estivermos com a venda do privilégio branco, deixando de ouvir, observar e nos indignarmos contra o tratamento às mulheres pretas, nós seremos tão fomentadoras do patriarcado quanto os homens que o criaram.

Se é tempo de lutar contra o patriarcado, é tempo de lutar pelo feminismo e, mais do que isso, é tempo de lutar pelos direitos delas, as mulheres negras.

Um grande momento
O encontro no banheiro

Estreia dia 8 de março no Telecine

Daniela Strieder

Advogada e ioguim, Daniela está sempre com a cabeça nas nuvens, criando e inventando histórias, mas não deixa de ter os pés na terra. Fã de cinema desde pequenina, tem um fraco por trilhas sonoras.
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