Crítica | Cinema

Mundo em Caos

E o caos estava além do mundo…

(Chaos Walking, EUA, CAN, HKG, LUX, 2021)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Doug Liman
  • Roteiro: Christopher Ford, Patrick Ness
  • Elenco: Tom Holland, Daisy Ridley, Demián Bichir, David Oyelowo, Kurt Sutter, Cynthia Erivo, Bethany Anne Lind, Mads Mikkelsen, Nick Jonas, Ray McKinnon, Vincent Leclerc
  • Duração: 109 minutos

Quando pensávamos que os “filmes sobre distopia futurista adolescente baseado em livros de sucesso que se tornavam adaptações fracassadas” (sim, de uns 10 anos pra cá, isso praticamente se tornou um gênero cinematográfico) tinham encerrado seu ciclo de existência, o mundo resolve nos presentear com a trilogia Mundo em Caos, cujo primeiro volume acaba de ser adaptado e chega aos cinemas nesta quinta. Mundo em Caos, o filme, é daquelas produções que olhamos e temos a certeza de que ninguém pediu, ninguém se animou, ninguém queria ver, mas mesmo assim foram lá e fizeram. O resultado é impressionante, e isso é só o começo.

Doug Liman está em seu segundo longa esse ano (o outro chama Locked Down) e conseguiu o feito de ter dois filmes muito atacados no mesmo ano; se olharmos apenas para esse, compreendemos. Surgido há 25 anos com o estouro de Swingers, o cineasta emendou um trio de filmes muito bem recebidos em todos os sentidos (além desse, Vamos Nessa! e A Identidade Bourne), e desde então vem com a carreira em montanha russa, alternando muito altos e muito baixos, mas provavelmente esse é pior ano de sua carreira e só precisava desse título para isso ser claro – imagina tendo dois em iguais condições.

Mundo em Caos

O primeiro exemplar da trilogia de Patrick Ness é adaptado pelo mesmo e por Christopher Ford (de Homem-Aranha: De Volta ao Lar) e o resultado é o esperado pra quem já passou por Jogos Vorazes, Divergente, Maze Runner, e outros de procedência ainda mais duvidosa como Dezesseis Luas e Mentes Sombrias. O plot é basicamente similar em sua origem: no futuro, um grupo de refugiados tenta sobreviver em terra inóspita em narrativa liderada por um adolescente. Aos poucos, as “peculiaridades” do seu universo vão sendo reveladas – só sobreviveram homens após um massacre, um foguete com uma sobrevivente feminina cai próximo a essa colônia, e a ação não se passa na Terra, nada que necessariamente afaste o pensamento de estarmos vendo variações de um mesmo subgênero literário que arrecadou milhões nas páginas mas não é uma garantia de sucesso nas telas.

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Aqui, além de todos os clichês possíveis, temos uma produção das mais esteticamente feias recentes do cinema, com utilização cafona de efeitos visuais para detectar os pensamentos em voz alta dos personagens, que se comunicam sem precisar dialogar, apenas lendo as mentes uns dos outros. São todos envolvidos por membranas de furtacor durante toda a produção, em resultados patéticos. Observamos com clareza se tratar de uma produção muito barata, mas para isso duas soluções poderiam ser tomadas: ou usar a criatividade para desenvolver essas imagens, ou cancelar a produção. O susto vem à tona ao descobrirmos que foram gastos 125 milhões de dólares aqui, que provavelmente foram parar no bolso de alguém.

Mundo em Caos

Não devidamente decepcionados com a produção capenga, Mundo em Caos se pretende discutir o machismo em cena, mas só consegue constranger, especialmente porque ao criticar as posturas de seus personagens masculinos, acaba incorrendo nos mesmos erros, ou seja, um filme machista criticando o machismo. Todos os personagens são unidimensionais, não conseguem nunca ir além dos seus desenhos iniciais, e incomoda o fato de que o filme teria um caminho minimamente interessante para abordar seus temas, incluindo a homossexualidade que surge numa terra povoada apenas por homens – e existe uma família no filme liderada por um casal gay que simplesmente não é problematizada, ou minimamente abordada em cena.

O mais assustador em Mundo em Caos é observar a quantidade de profissionais de primeiro time defendendo um texto impronunciável (talvez caiba aqui uma metaforização sobre eles não falarem – seria por não quererem verbalizar tamanhas bobagens?). Mads Mikkelsen (de Druk), Cynthia Erivo (indicada ao Oscar por Harriet), Demian Bichir (indicado ao Oscar por Uma Vida Melhor), David Oyelowo (de Selma), além dos protagonistas Tom Holland (o atual Homem-Aranha) e Daisy Ridley (a Rey dos recentes Star Wars) unidos por um projeto tão desprovido de méritos.

Mundo em Caos

Há evidente tentativa de levar a sério um material risível, e o filme acreditava nas intenções de debater questões maiores em cena, mas como nenhum dos debates é aprofundado, todos os dados que o filme joga na tela soam apenas gratuitos e vazios. E não era necessário acompanhar esse desenvolvimento de maneira adensada – é possível realizar entretenimento de conteúdo sem perder ritmo e com material aprofundado. Aqui, no entanto, não foi possível entreter ou provocar; o sentimento é de incompreensão mesmo. Por quê? Apenas isso.

Um grande momento
A despedida entre Ben e Cillian

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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