Crítica | Streaming

Os Intrusos

Viagem interrompida

(The Owners, GBR, FRA, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Julius Berg
  • Roteiro: Mathieu Gompel, Julius Berg, Geoff Cox
  • Elenco: Maisie Williams, Sylvester McCoy, Rita Tushingham, Jake Curran, Andrew Ellis, Ian Kenny, Stacha Hicks
  • Duração: 92 minutos

O estranho e o inusitado sempre cai bem em filmes de invasão, quando a obviedade dos planos encontra aquilo que quebra a expectativa não só dos personagens, mas também dos espectadores. Os Intrusos, disponível no Telecine, é um longa que não esconde que vai se apoiar em surpresas, embora não revele quais serão elas. Sem grandes rebuscamentos e de natureza indie, apresenta seus personagens perdidos e fracassados em discussões vazias e com um plano de assalto mal elaborado, o que, aqui, não seria nenhum problema.

O filme é inspirado na história em quadrinho francesa “Une nuit de pleine lune” e, inclusive,  faz uma referência gráfica bastante evidente à sua origem. O roteiro do também diretor Julius Berg e de Mathieu Gompel e Geoff Cox, toma suas liberdades, ressignifica personagens e determina novas aproximações com o público. Ainda assim, nada é para ser profundo, e o importante é destacar a relação que há entre todos: invasores propositais, ocasionais e invadidos.

Os Intrusos

O título em português faz menos sentido do que o original, The Owners, ou os proprietários, e a história, no fim das contas, é tola, assim como os personagens. O que se vê também não é inédito, seria como se Berg juntasse na mesma casa as sensações que Alvarez despertou com O Homem nas Trevas e o estranhamento que Shyamalan trouxe a A Visita, mas com um pouquinho menos de alma. Narrativas com invasão têm aparecido cada vez mais no cinema no cinema de horror e talvez aí esteja uma das fraquezas do longa, mas é mesmo na reviravolta final — e na frouxa história que a justifica — que o filme tem seu maior deslize.

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Porém, Os Intrusos tem lá seus momentos, em especial com os rompantes da personagem de Rita Tushingham e a falsa pasmaceira de Sylvester McCoy. O filme é dos dois atores veteranos e tanto o roteiro quanto a direção dão espaço para a criação do casal. A apresentação já é contraditória: ao longe, eles são vistos como um casal de velhinhos fofinhos saindo para um passeio, mas de perto, ao voltar, como um casal de adolescentes que não aguenta esperar chegar no quarto. E assim seguem por todo o filme.

Os Intrusos

A jovem Maisie Williams, que ganhou destaque por viver Arya Stark em Game of Thrones e também está no fraquíssimo Os Novos Mutantes, recentemente lançado no Telecine, é a figura central do filme, aquela que liga os dois universos que conflitam. A atuação é regular e não compromete, mas é claramente superior à de seus colegas de cena. O interessante é que toda a configuração estabelecida, inclusive pela irregularidade do elenco, remete o espectador a um cinema do passado. Em vários momentos é como se Os Intrusos fosse um filme de tempos idos, sensação reforçada pela fotografia e pela direção de arte.

É assim, no estranhamento e no inusitado, que a produção encontra lugares para se colocar como algo que merece atenção. São os dois personagens incongruentes, a ambientação deslocada, a aura confusa, ou mesmo uma ingenuidade que só poderia estar contida ali naquela história que transformam o universo. Pena que tudo isso encontre uma trama desconjuntada e tola, e a sensação de repetição que desmerece toda essa possibilidade de brincar com o passado. Sem perceber, Berg escapa do todo em que ele mesmo depositou tantas fichas e encontra uma obviedade que faz mal a seu filme.

Um grande momento
Cantando na cozinha 

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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