Crítica | Streaming

Os Novos Mutantes

(The New Mutants, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Josh Boone
  • Roteiro: Josh Boone, Knate Lee
  • Elenco: Maisie Williams, Anya Taylor-Joy, Charlie Heaton, Alice Braga, Blu Hunt, Henry Zaga, Adam Beach, Thomas Kee, Colbi Gannett
  • Duração: 94 minutos

Último lançamento da Fox antes da aquisição da Disney — após 20 filmes produzidos, sendo X-Men o primeiro — o legado é encerrado de forma melancólica com Os Novos Mutantes, uma produção problemática, assombrada e que quase não foi lançada.

Antes mesmo de se tornar popular em outros idiomas o termo spin off foi utilizado por artistas da indústria cultural como o quadrinista Chris Claremont, responsável por uma das fases mais exitosas dos X-Men e consequentemente da Marvel, entre os anos 70 e 90. Ele e o desenhista Bob McLean criam uma história subsequente sobre um grupo formado por alguns adolescentes que estão na Escola Xavier para Jovens Superdotados: “Os Novos Mutantes”.

Corta para os anos 2000 e a invasão dos super-heróis da arte sequencial no cinema, respondendo por grandes bilheterias até chegar aos recordes absolutos do Universo Cinemático da Marvel — o que envolve inclusive uma saturação da “fórmula de sucesso”. Aqui há algo Interessante, que foi visto com expectativa na indústria cinematográfica, um filme do universo dos Mutantes como um exercício de gênero, uma trama de horror sobre adolescentes lidando com puberdade, culpas, traumas, a descoberta e consequente controle dos seus poderes.

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Os Novos Mutantes
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

O trailer, estranho, apresenta a premissa, dá sustos interessantes enquanto tem um elenco promissor, com nomes como Maisie Williams, a Arya de Game Of Thrones, ou Charlie Heaton, de Stranger Things. Mesmo carismática, a estrela Anya-Taylor Joy, de Emma, não é capaz (nem seus colegas) de sustentar a marimba e livrar esse filme de ser um fracasso como já era previsto.

Por quê? Pode ser pelo fato de o filme ter parado no meio do furacão da fusão entre as corporações midiáticas ou apenas uma falta real e gigantesca de aptidão para conduzir a adaptação para o cinema. Os Novos Mutantes teve lançamento adiado várias vezes; foi, inclusive, remontado após testes de audiência e reuniões internas, sendo que o conjunto derivado de tantas mudanças não dialoga com nenhum público.

Dirigido por Josh Boone, vem de um roteiro equivocado (escrito com Kante Lee, produtor da série Jackass) que estrutura uma trama completamente descartável: Dani uma jovem cheyenne sobrevive a um trauma pessoal se recuperando numa espécie de hospital psiquiátrico onde conhece outros quatro jovens que estão passando por testes comandados pela Dra Reyes (Alice Braga), que su.
Dra Reyes supostamente trabalha para Charles Xavier, mutante e telepata mais famoso do mundo, nesse local onde as crianças e adolescentes com mutação genética (o fator X) lidam com as ameaças – que no caso, podem ser eles próprios. Dra Reyes inclusive manifesta poderes, gerando campos de força plasmática (gaiolas) que os mantém presos.

Os Novos Mutantes
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Como nos quadrinhos, o grupo é conduzido por Danielle Moonstar/Miragem (Blu Hunt). Os Novos Mutantes finge dedicar um tempinho para o desenvolvimento dos outros personagens que compõem o grupo — inclusive o brasileiro Roberto da Costa/Mancha Solar, interpretado pelo também brasileiro Henry Zaga. O filme se detém um pouco em cada a partir dos pesadelos ou delírios que vão se manifestando, compondo até que de forma coerente o background de Dani, sendo fiel à origem da heroína e à lenda do urso místico, bem como justificando os terrores por meio de seus poderes.

Mas quando a história tem que progredir e o enredo se solidificar, tudo vai por água abaixo com cenas descartáveis e soluções narrativas arrastadas ou elementos que simplesmente não funcionam. Difícil é não torcer o nariz ou segurar o constrangimento em cenas como a da personagem de Alice Braga “tratando” os jovens desajustados em sessões de terapia torturante ou mesmo em como a relação entre Dani e Rahne poderia ter sido tratada com mais carinho apesar da evidente química presente — pena que nesse caso a intenção era apenas marcar pontos com o público queer.

Os Novos Mutantes
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

E mesmo acertos se tornam erros quando a conclusão do arco dramático de Os Novos Mutantes se aproxima, com a definição da principal ameaça a sobrevivência da equipe enquanto outras pistas são simplesmente esquecidas ou descartadas. Dra. Reyes trabalha para Essex corporation que é uma óbvia menção ao Sr. Sinistro, um dos maiores vilões da Casa das Ideias e cujo nome verdadeiro é Nathaniel Essex. Ele sempre fora obcecado por genética e evolução humana, sendo o criador de criaturas como Madeline Pryor — clone de Jean Grey, a Fênix Negra. Se foi apenas citado pois era um gancho para uma provável continuação onde o grupo liderado por Miragem o enfrentaria, ninguém nunca saberá.

Só a cena da igreja com a absolvição final e os poderes da Miragem emergindo é bacana — talvez mais pelos efeitos especiais e as pirotecnias em si. Apenas uma gota que não ameniza o deserto de ideias que é mais essa adaptação cinematográfica de heróis dos quadrinhos, deixando quem gosta dos mutantes realmente com sede e raiva.

Um grande momento
Magia entre as dimensões

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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