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O Auto da Boa Mentira

(O Auto da Boa Mentira, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: José Eduardo Belmonte
  • Roteiro: João Falcão, Tatiana Maciel, Célio Porto
  • Elenco: Chris Mason, Nanda Costa, Michelle Batista, Renato Góes, Giselle Batista, Jesuíta Barbosa, Leandro Hassum, Silvio Guindane, Giulia Gam, Zezé Polessa, Cássia Kis, Johnny Massaro, Robson Nunes, Jackson Antunes, Luis Miranda, Carlos Gregório, Rocco Pitanga, Serjão Loroza, Rodrigo García, Cacá Ottoni
  • Duração: 100 minutos

Piadista, contador de histórias, trovador e romancista, Ariano Suassuna ainda rende muitas e tantas narrativas audiovisuais. Para além do fato de que nove entre 10 brasileiros amam e citam entre seus filmes prediletos O Auto da Compadecida de Guel Arraes, reprisado à exaustão na TV, tornando mais difícil ainda adaptar histórias tão emblemáticas para o movimento armorial — inciativa artística que buscava criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular nordestina — sem descambar para a caricatura sem graça nenhuma…

Dirigido pelo cineasta brasiliense José Eduardo Belmonte, O Auto da Boa Mentira é quase que uma antologia inspirada em pilhérias, causos e maneiras de contar do escritor paraibano. Cineastas italianos como Fellini, Antonioni, Visconti, De Sica e Monicelli volta e meia faziam antologias juntos, onde dirigiam curtas ou segmentos de uma mesma linha temática como Amores na Cidade ou Boccaccio ’70. Aqui, o elo de ligação da mitologia de Suassuna é a mentira, as farsas.

O Auto da Boa Mentira

Elas se sucedem na contemporaneidade, deixando um pouco o sertão do final do século 19 ou meados do século 20 povoado por cangaçeiros e outros personagens de cordel mais frequentes na narrativa épica de Suassuna. Dos quatro segmentos, em ordem narrativa, o que abre os trabalhos é Fama, com o humorista Leandro Hassum vivendo uma fábula na melhor tradição “o príncipe e o plebeu”, como
o farsante, o “duplo”, que toma pra si a vida do seu sósia. É sem dúvidas o mais fraco em termos de atuação, direção e roteiro, não fazendo a menor cócega.

O mais trabalhado em termos de dramaturgia e referências, Vidente tem toques neorrealistas fellinianos. Destaque para Jackson Antunes como o falso pai/palhaço Romeu, que engabela o sonhador personagem de Renato Góes, também ludibriado pela mãe — a sempre competente Cássia Kis.

Furão fala de um gringo assaltado e traz uma dobradinha boa entre Chris Mason (de Lendas do Crime) e Sergio Loroza. Jesuíta Barbosa está caricato como o chefão do tráfico no morro, mas como é o episódio mais galhofesco não incomoda tanto, além de ter sua graça por apresentar uma inversão em terras cariocas.

O Auto da Boa Mentira

Esteticamente tendo problemas de edição, som e enquadramento (com uma elaboração visual pouco inventivo) o segmento Disney da estagiária vivida pela novata Cacá Ottoni é o mais engraçado seja pela comédia de situação e pelo elenco, que, além do ótimo Luís Miranda, tem outros bons atores mostrando sua veia cômica como Johnny Massaro, Silvio Guindane e até a cantora Letrux – Letícia Novaes.

Guel Arraes inclusive é produtor associado e espécie de consultor de estilística, já que a narrativa traz alguns símbolos de suas outras produções passadas no nordeste brasileiro mítico. Quem assina o roteiro é João Falcão, também roteirista de O Auto da Compadecida (junto com Adriana Falcão), ao lado de Tatiana Maciel e Célio Porto.

Um grande momento
Festa da firma

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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