Críticas

Harriet

(Harriet, EUA, 2019)
Drama
Direção: Kasi Lemmons
Elenco: Cynthia Erivo, Leslie Odom Jr., Joe Alwyn, Clarke Peters, Vanessa Bell Calloway, Omar J. Dorsey, Henry Hunter Hall, Tim Guinee, Nick Basta, Joseph Lee Anderson, Antonio J Bell, CJ McBath, Alexis Louder, Aria Brooks, Janelle Monáe, Zackary Momoh
Roteiro: Kasi Lemmons, Gregory Allen Howard
Duração: 125 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Harriet Tubman tem uma história de vida extraordinária. Nascida escrava nos Estados Unidos, ela fugiu da fazenda onde estava com sua família e tornou-se uma das mais importantes abolicionistas do país, indo pessoalmente resgatar escravos de fazendas do sul e levando-os até o norte; comandando uma expedição que libertou mais de 700 escravos na Guerra Civil – ela foi a primeira mulheres a liderar uma expedição armada nos EUA –, ou atuando nos bastidores de outros eventos.

No mundo racista e machista do cinema, não é de se estranhar que uma história tão impressionante quanto a de Tubman tenha demorado tanto para ser realizada. Até que uma postura quanto à representatividade e representação negra fosse realmente cobrada da indústria, essa história seguia sendo contada às novas gerações através de peças teatrais, óperas, romances, livros e até duas séries televisivas.

Com a questão fervilhando, a Universal, pela Focus Features, finalmente levou Harriet Tubman à tela grande. É uma pena, porém, que o longa dirigido por Kasi Lemmons não vá muito além da apresentação de Harriet a quem não a conhece. Ainda que seja impressionante, há tanto a se falar sobre esta mulher que apenas um filme sobre seus resgates é pouco.

Protagonizado por Cynthia Erivo, que faz um ótimo trabalho ao tentar encontrar a personagem e defendê-la, Harriet está tão preocupado em representar a ação – e suas explicações sobrenaturais – que esquece-se do principal, criar um vínculo entre o espectador e cada um de seus personagens. Tudo é muito superficial e falta conexão também entre quem está na tela.

Entre as fugas e alguns momentos de tensão pela perseguição, há passagens interessantes, principalmente quando elas rompem com o estabelecido. O estranhamento faz bem a um filme tão enquadrado, e isso está nas imagens de delírio, especialmente as menos claras, que se fundem com o presente do filme.

Porém, se há um respiro visual, estético criativo, há questões no uso recorrente dessas imagens, pois isso acaba por destacar o propósito mais gospel, algo que devia ser particular da personagem. Nada contra a fé de ninguém, mas o que acontece quando se supervaloriza os atos e a influência do imaterial neles é que, de certo modo, os feitos humanos são diminuídos pela existência dessa força sobrenatural. Ainda que a crença exacerbada seja um traço importante da real Harriet, a superficialidade de outras camadas, faz com que isso prevaleça e transforme sua luta em alguma espécie de fanatismo, algo inconsciente. O que não é o caso.

Harriet tem uma personagem incrível, mas, infelizmente, se perde naquilo que pretende mostrar dela. Tem os seus méritos por levar essa personagem à tela e dar uma representação para a história de sua fuga, além de ser importante pelo que significa o fato de chegar lá, ter uma distribuição e estar agora indicado em duas categorias do Oscar. Mas Moses merecia um filme melhor.

Um Grande Momento:
Chegando à Pensilvânia.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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