Crítica | Streaming

Ninguém Sabe Que Estou Aqui

(Nadie Sabe Que Estoy Aquí, CHL, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Gaspar Antillo
  • Roteiro: Gaspar Antillo, Enrique Videla e Josefina Fernandez
  • Elenco: Nelson Brodt, Juan Falcón, Julio Fuentes, Jorge Garcia, Luis Gnecco, Alejandro Goic, María Paz Grandjean, Solange Lackington, Millaray Lobos, Gastón Pauls, Eduardo Paxeco, Roberto Vander
  • Duração: 100 minutos
  • Nota:

Há projetos que parecem ter nascido para a embocadura de um único intérprete possível. Alguém imagina o maduro Don Vito Corleone interpretado por outra pessoa que não Marlon Brando? Annie Hall faria algum sentido fora do corpo de Diane Keaton? E um Indiana Jones sem Harrison Ford vem sendo tentado, mas terá aquela magia? Iconicidades fora, Ninguém Sabe que Estou Aqui vai além de voz e marcação gestual para dar a Jorge Garcia (o Hurley de Lost) um lugar que explore uma introspecção que o próprio ator já experimentou no seu papel-chave, mas que aqui vem acompanhada de um estofo dramático e de um rigor imagético que une todas as potencialidades procuradas no projeto.

Produzido por Pablo Larraín (diretor de No e Tony Manero e produtor de Uma Mulher Fantástica), Ninguém Sabe Que Estou Aqui é a estreia na direção de Gaspar Antillo, que saiu do Festival de Tribeca premiado justamente como realizador revelação, prêmio que lhe cai bem. A melancólica história de Memo é filmada com doses de humanidade e comedida exuberância, que acabam por equilibrar as camadas de uma narrativa que parece te entregar tudo muito rápido, mas se revela cada vez mais intrincada a cada nova informação recebida – e são muitas. Larraín captura um acerto amplo ao olhar não apenas para o Chile, mas para uma história de abrangência universal sobre a perda da própria voz.

Jorge Garcia em Ninguém Sabe Que Eu Estou Aqui (2020)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

Em 20 minutos, o filme mostra que o talento de seu protagonista foi explorado e vendido pelo próprio pai, e acabou gerando uma série de traumas inimagináveis. O mais óbvio é o de Memo, que bloqueou sua personalidade e construiu uma vida interiorizada; uma explosão de cor, luz e brilho que lhe foi roubada mas se esconde dentro de si. Como se conclamasse uma dívida com a sociedade que o usurpou, o protagonista só sai de sua casa-exílio numa ilha afastada para invadir casas e tomar pra si alguma pequeneza que lhe faça sentido. Aos poucos, sua história ficará grande pro seu trabalho junto ao carinhoso tio como criador de ovelhas. 

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Na ausência do espetáculo que deveria ter composto sua vida, Memo criou um universo particular onde veste em si tudo que faltou em sua existência: o brilho que faz parte integrante de seu DNA (e que em determinado momento da produção é expelido com veemência) é reproduzido artificialmente em sutilezas pontuais, em fugas precisas para se conectar com a vida que o destino lhe deve, e que ele cobra de maneira lúdica. Quando a realidade exterior rasga seu microcosmos, Antillo para de explorar os ombros de seu protagonista pra encher a tela com sua frontalidade arrebatadora, tirando o personagem da sombra que criou pra si, dando o holofote que lhe é de direito. 

Jorge Garcia em Ninguém Sabe Que Eu Estou Aqui (2020)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema

O trabalho de direção não aparenta nenhuma inexperiência em cena, deixando claro que sua construção dessa leitura de personagem é muito física e expositiva, mas vai além do corpo de Garcia e invade os cenários pelo qual ele circula pra ler suas potencialidades em cada ação que cometer. A coragem do ator encontra respaldo na exigência do autor, ambos sem medo de entregar nuances cada vez mais significativas, que vão desde a leitura em imagens desse corpo até o olhar surpreendente ante as revelações do filme, que permitem a Garcia expandir seu trabalho para além do peso que sua massa representa – são olhos, mãos e pernas a serviço do cinema, que Antillo lê tão bem. 

Sem se conformar em garantir uma prisão de aceitação e depressão para seu personagem, o filme erra ao não explorar o suficiente para dar credibilidade ao seu final, que, no entanto, me parece muito mais próprio da evolução do filme; observa uma espécie de (re)nascimento, e não podia chafurdar no lugar-comum da auto piedade ou da tristeza recorrente. Cheio de vida, Ninguém Sabe que Estou Aqui tem na fotografia de Sergio Armstrong (o gênio por trás de No, Neruda, Ema e a maioria dos longas de Larraín) um ponto de conexão vital à trama, trazendo luzes quentes a vida interior de Memo e cinza às costas do mesmo. 

Sem ampliar as questões a respeito da auto-estima reconstruída do personagem central que poderiam render tanto, o roteiro de Antillo, Enrique Videla e Josefina Fernandez centra muito mais em seus rompantes do que na construção deles. Isso não diminui o brilho de uma estreia tão sensível quanto a dessa história do patinho feio ao qual foi negada a possibilidade da transformação em cisne, e sai de cena deslizando com o sentimento de dever cumprindo. 

Um Grande Momento:

Toda a sequência do reencontro entre Memo e Angelo.

Netflix

Ninguém Sabe Que Estou aqui

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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