Crítica | Festival

Três Verões

(Três Verões, BRA, 2019)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Sandra Kogut
  • Roteiro: Iana Cossoy Paro, Sandra Kogut
  • Elenco: Regina Casé, Rogério Fróes, Gisele Fróes, Jéssica Ellen, Alli Willow, Otávio Müller, Saulo Arcoverde, Edmilson Barros, Charles Fricks, Gustavo Machado, Carla Ribas,
  • Duração: 94 minutos
  • Nota:

Natural que no meio de todo o caos político e social a criatividade se apresente. Ainda que em vieses diferentes, afinal, cada vivência é única, temas se repentem em livros, seriados, charges, quadrinhos e também no cinema. Três Verões é um filme que trata de temas atuais, como o abismo de classe, a relação com empregados domésticos e corrupção; encontra o momento adequado, mas não consegue trabalhar muito bem aquilo que quer abordar. 

Sandra Kogut, com um roteiro dela própria e Iana Cossoy Paro, cria um universo pouco crível por conta da superficialidade com que o explora, e, mais grave, não consegue estabelecer o vínculo necessário com sua protagonista, nem o do púbico com ela e nem o da personagem com o seu ambiente. E olha que Regina Casé tem carisma e se relaciona muito bem com a câmera, mas parece nascer uma barreira entre ela e o que está à sua volta. 

Regina Casé em Três Verões (2019)

Sua Madá, assim como a Val de Que Horas Ela Volta? é uma personagem parada no tempo, alguém que não percebeu as mudanças sociais ocorridas no país. Ela vive para os patrões e seus sonhos dependem dos “favores” que eles a fazem. Ainda que se tente criar uma figura simpática, carismática com sua gentileza, diversão e preocupação com todos que a cercam, Três Verões comete um dos mais graves pecados: ele julga, ainda que inconscientemente, aquela mulher.

Passagens constrangedoras como suas reações à busca da polícia, toda a transação do dinheiro/celular, a conversa com a americana e a ignorância na garage sale são retratos de uma visão classista e bastante complicada. Como denunciar uma realidade tendo com ela a mesma relação repleta de estereótipos e pré-determinações? A contradição é tanta que não há carisma ou empenho que faça com que o transmitido seja menos incômodo. 

Regina Casé em Três Verões (2019)

Para completar, há uma dificuldade muito grande em se perceber qualquer nuance nos personagens satélites. Desenvolvidos de maneira bastante superficial, com passagens rápidas e confusas pela trama, é como se aquelas histórias de vida não encontrassem qualquer ponto em comum. Embora tenha cenas tecnicamente interessantes, como o passear pelo churrasco, o que se vê são pessoas sem individualidades que se misturam sem conseguir se conectar.

Com a dificuldade de imersão e o desacerto – ou equívoco – da abordagem, Três Verões é uma obra que não sobrevive a si mesma. Seja como denúncia ou entretenimento, vai tropeçando por todo o trajeto, criando um caminho custoso para se seguir e que desemboca numa tentativa de justificação pavorosa para a história daquela mulher. Um filme que quer ser bem intencionado, mas acontece no tempo errado, e do jeito errado também.

Um Grande Momento
As fotos no terreno. 

[Festival de Pré-Estreias Espaço Itaú Play]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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