Crítica | Cinema

Noite Infeliz

Um bom e explosivo velhinho

(Violent Night, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Ação
  • Direção: Tommy Wirkola
  • Roteiro: Pat Casey, Josh Miller
  • Elenco: David Harbour, John Leguizamo, Beverly D'Angelo, Leah Brady, Alex Hassell, Alexis Louder, Edi Patterson, Cam Gigandet, Mike Dopud , Brendan Fletcher, Mitra Suri, Alexander Elliott
  • Duração: 100 minutos

Não dá pra encarar Noite Infeliz como uma sátira, pura e simples. Seria sátira ao quê, exatamente, se fosse? Ao consumismo desenfreado natalino, a uma necessidade de bons sentimentos que só existem no fim do ano, a uma obrigatoriedade à crença no lúdico? Pois é, não encarei dessa forma, não vi um apreço pela desconstrução de um gênero cinematográfico, o tal ‘filme natalino’, que já assombrou os cinemas em dezembro, e hoje faz a festa na Netflix todo ano. Estreando justamente nos cinemas essa semana, essa produção em tudo difere do que estaríamos acostumados a ver, mas não se encara como um gesto satírico de um certo tipo de cinema. A sátira, se existe, é à própria figura do bom velhinho, que aqui está em lugar diferente do que Billy Bob Thornton nos apresentou em Papai Noel às Avessas, até porque o personagem aqui é o próprio Papai Noel.

Tommy Wirkola, que dirigiu o violento The Trip para a Netflix, aqui, apesar do título original, ao menos demora um pouco para engatar no grafismo de tal violência. Não é essa questão que desequilibra positivamente o filme, a partir da metade. É aconselhável ter paciência com o trabalho do diretor, que trabalha em fogo brando rumo aos seus propósitos. Enquanto a fogueira da chaminé permanece baixa, Wirkola e o roteiro de Pat Casey e Josh Miller seguem sem empolgar, parecendo um arremedo de outras histórias repetidas. Mesmo as surpresas iniciais, são adiantadas pelo espectador menos atento. É quando finalmente o tio de vermelho chega à casa sequestrada que o molho engrossa e somos levados a uma espécie de parque de diversões do mal.

Noite Infeliz
Universal Pictures

Um dos motivos é dado logo de cara, e demora a ter sua função revelada na narrativa, que é a alusão, direta e indireta, a Esqueceram de Mim e Duro de Matar. Quase como se pudéssemos traduzir como “o filme de Natal para as crianças, e a versão para os adultos”, as duas referências se mostram presentes e vão crescendo tampouco a trama avança. Isso faz algum sentido, tendo em vista que são produções de 30 anos atrás onde o Natal era cenário central. Logo, um filme sobre um sequestro que acontece numa noite feliz, envolvendo uma criança solitária e com um herói improvável, não tinha mesmo pra onde correr. O que chama atenção é a forma inteligente que os elementos vão se unindo, sem criar uma obrigatoriedade de obedecer a um padrão ou outro; tem organicidade nos movimentos.

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Assim que Noite Infeliz ganha tração, o filme passa a não depender mais de seus coadjuvantes, por vezes insuportáveis (finalmente acharam uma função para o péssimo Cam Gigandet – interpretar a si mesmo, um ator péssimo) e sem função. Em tese, nada é muito mais funcional no filme que sua espinha dorsal; ainda que dependente de uma ideia e um relevo que se compreenda, a cena de abertura basta para compreender o que se passa na cabeça de Noel. Deprimido, alcoólatra, desmotivado com o mundo (nós te entendemos, Noel…), o bom velhinho quer se aposentar. Nada é mais eficaz contra as dores emocionais do que encontrar várias pedras no sapato, que nos motive a solucionar tais questões. No caso dele, podendo marretar umas cabeças e retalhar uns bandidos, por que não?  

Noite Infeliz
Universal Pictures

Ao seu encontro, chega alguém tão talentoso para o “perigo” quanto. A pequena Trudy, interpretada pela luminosa Leah Brady, assistiu as aventuras da família McCalister a pouco tempo e, inspirada pela atuação de Macaulay Culkin, resolve colocar em prática tudo que Chris Columbus ensinou em 1990. O resultado é uma atuação comovente e um dos momentos mais verdadeiramente divertidos – e sádicos, ao mesmo tempo – do ano. Noite Infeliz nos faz torcer não necessariamente para o perdão entre os pais de Trudy, mas para que necessariamente seu presente de Natal se transforme em realidade. Isso é causado pela importância que a personagem ganha na trama, e no tanto de carisma que a pequena carrega ao longo do filme. 

E olha que ela contracena com David Harbour hein… renascido após Stranger Things, o ator de 47 anos tem, agora, uma carreira maiúscula, e corresponde a ela com talento. Em Noite Infeliz, nunca deixamos de acreditar em todas as curvas que dá ao seu cansado Noel, do velhinho rabugento e melancólico do princípio, passando pelo sanguinário vingador da metade, até o bonachão emocionado (e emocionante) do fim, Harbour brilha demais. É um desses momentos onde valeria até uma lembrança no Globo de Ouro, para que esse tipo de atuação volte a ser considerada com justiça. A química que nasce a cada novo contato entre ele e Brady, mesmo à distância, eleva a segunda parte do longa, que acaba nos divertindo bem mais do que aparentava. Porém, aguardem a catarse; ela demora um pouco, mas chega. 

Um grande momento

Bryan Adams

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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