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Noites Brutais

Enfim tensão de verdade

(Barbarian, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Zach Cregger
  • Roteiro: Zach Cregger
  • Elenco: Georgina Campbell, Bill Skarsgård, Justin Long, Matthew Patrick Davis, Richard Brake
  • Duração: 102 minutos

Em uma noite chuvosa, sem querer atender às ligações insistentes no celular, Tess chega na casa que ela alugou num lugar isolado de Detroit. Muito pouco se vê do lugar além da casa e da varanda onde ela está e a tensão que começa a se estabelecer no código errado digitado na caixinha da chave não é nada perto de tudo que se tornará nos minutos seguintes. Noites Brutais é uma escalada angustiante, com um terror que vai se construindo nessa ansiedade. Escrito e dirigido por Zach Cregger, o filme parte da premissa da crítica ao patriacado — tá na moda agora os moços falarem sobre isso — e, em suas referências aos perigos do mundo real alcança o medo palpável para introduzir sua história.

A desconfiança da protagonista, uma mulher independente que tem a consciência dos cuidados a serem tomados, mas vai abandonando-os aos poucos, à medida que o horror avança e seus clichês vão tomando conta da trama, é a principal responsável por essa conexão com o filme. Assim como ela, não sabemos de nada, não acreditamos em nada e, a cada novo acontecimento, temos menos certeza daquilo que poderá se dar se seguir. O interessante do longa é que nada é imediato, e há muita funcionalidade em sua primeira parte, na graduação do gênero. Quando a realidade se revela para além do microuniverso de ansiedade criado a princípio, não há qualquer alívio. Pelo contrário, o diretor se aproveita de todos os elementos para criar mais tensão, seja a vizinhança da casa, a escolha do plano da entrevista, as informações que são dadas — ou não — e até as armadilhas tão comuns de filmes suspenses, que ele sabe fazer funcionar.

O jogo bem estabelecido na primeira parte se transforma completamente e sem nenhuma parcimônia. É divertido como o filme joga o espectador de um lado para o outro e abandona seus personagens para começar uma outra história, com outras cores, ritmo e estilo. Quando Tess sai de cena, AJ assume seu lugar e eis aí uma personagem detestável que vai levar Noites Brutais a um outro lugar, criando uma nova dinâmica entre os espectadores e a trama, principalmente depois que as histórias se reconectam. Se há, porém, um bom entremeio dessas duas linhas, Cregger não consegue ser tão eficiente na construção do seu terceiro plot. Embora esteja tudo ali, e algo se consiga justificar, é preciso explicação externa e há uma necessidade de superexposição bem estranha, principalmente para alguém que está tão interessado em trabalhar com o universo de contaminação patriarcal.

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Mas não é nada que comprometa, em absoluto, a experiência. O filme mergulha com força em tudo aquilo que se espera e se conhece do cinema de suspense e terror, inclusive com os irritantes momentos de “ninguém iria por aí”, “ela não vai voltar, né?” e aquela falsa seguança, todos trazendo, de certa maneira, diversão e estimulando a tensão. E esse o grande diferencial de Noites Brutais. Porque filmes de terror, pelo menos os bons, costumam ser tensos, e este tem uma habilidade que vai bem além daquela que estamos acostumados a ver nessa profusão de lançamentos anuais. E existe aqui uma imprevisibilidade também que, mesmo seguindo bem de pertinho todas as fórmulas, traz reviravoltas e revelações bem inesperadas.

Tecnicamente, o filme tem seus atrativos, com uma direção de fotografia que, quando busca o claustrofóbico encontra e transmite. Zach Kuperstein tem uma intimidade com o gênero, principalmente quando precisa trabalhar com a luz, e já mostrou isso em The Vigil e Os Olhos de Minha Mãe. A trilha musical de Anna Drubich (Um Lobo entre Nós) e o deesenho de produção de Rossitsa Bakeva também não decepciona. E ainda tem as boas atuações de Bill Skarsgård e seu indefinível Keith, Justin Long e seu terrível AJ, e uma ótima Georgina Campbell com sua teimosa Tess.

Para aqueles que estão com vontade de curtir um bom filme de terror, Noites Brutais é uma excelente pedida, com gosto de passado e futuro, e nas mãos de quem sabe fazer. Obviamente, falta uma certa precisão no amarrar da história e uma acuidade para falar de um tema que vai além da limitação do nunca-ter-vivido ou só-ouvidor-falar, principalmente porque ultrapassa limites complexos quando toca nos pontos de sua conclusão, mas nem vamos entrar nesse mérito. Falando em habilidade de criação, enquanto obra de tensão, há muita coisa por aqui.

Um grande momento
Vai pegar seu bebê

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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