Crítica | Streaming

Nossos Sonhos de Marte

Os medíocres também amam

(Moonshot, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, romance
  • Direção: Christopher Winterbauer
  • Roteiro: Max Taxe
  • Elenco: Cole Sprouse, Lana Condor, Zach Braff, Mason Gooding, Emily Rudd, Michelle Buteau, Christine Addams, Cameron Esposito, Sunita Deshpande
  • Duração: 100 minutos

Quem me acompanha, sabe do meu incômodo com um tipo específico de mensagem que o cinema (quase que essencialmente o estadunidense) criou no imaginário coletivo: aquele onde precisamos abrir mão de tudo – desejos profundos, jornadas infinitas e principalmente dinheiro, muito dinheiro – para encontrar uma tal de felicidade que geralmente é apresentada de maneira genérica. Nossos Sonhos de Marte estreou hoje na HBOMax e parecia mais uma narrativa onde essa seria a moral da história; ok, talvez até ainda seja sobre isso. Mas tem umas camadas sobrepostas a isso no passatempo cômico-romântico que, vá lá, conserva com qualidade o público na frente da tela durante 1h40.

Christopher Winterbauer é um diretor com uma longa carreira no curta-metragem, e que entrega seu segundo longa, uma ficção científica existencial com mais do que toques de comédia – na verdade, tudo está interconectado no roteiro e no timing da produção. O diretor entende do universo que está apresentando, e não estou falando de viagens espaciais e colonização interplanetária, mas da solidão e da dependência de fatores externos para justificar nossa mediocridade. O filme aposta em um reconhecimento de terreno mútuo, onde não se percebe a intercomunicação direta, mas onde seus protagonistas tentam fugir do que veem à sua frente: seu reflexo no outro.

A narrativa aqui é quase inteiramente fechada em seus dois protagonistas, Walt e Sophie. Apesar de serem absolutamente diferentes um do outro, eles se conectam pela fagulha que os une – a necessidade de ir para Marte. São jovens que espelham no filme uma realidade coletiva externa, a de não encontrar seu lugar no mundo e então partir para uma realidade alternativa. Na vida real, essa desintegração social leva na maior parte das vezes ao negativo; o que o filme mostra é que essa fuga pode render muito mais do que uma aventura significativa. Sair de sua zona de conforto para o filme é, acima de tudo, se colocar à disposição do outro, é encontrar no outro o que te complementa, é abrir mão da segurança que a rotina nos dá, para nos maravilharmos com o novo.

Apoie o Cenas
Nossos Sonhos de Marte
HBO Max

A aproximação dos personagens se dá por meio de suas ausências particulares, e ajudam o roteiro de Max Taxe a se aproximar do espectador, através da humanidade inerente a eles. Walt é um cara que sonha em conquistar o que não encontra em si, algo espetacular e estritamente especial; Sophie deseja descobrir o valor dos propósitos com a qual vive há 8 anos. Ele precisa aceitar o mundo e a si como parte integrante de um universo comum, sem atrativos – quando ninguém é especial, todos são?; ela precisa descobrir o próprio lugar, uma narrativa singular para chamar de sua. Juntos, eles perceberão que suas buscas individuais não estão em pauta, e assim reajustar o interior.

A “casca” de Nossos Sonhos de Marte impressiona, por imaginarmos que, a uma comédia romântica, não seriam destinados tantos recursos. O susto se justifica pela direção de arte caprichada a cargo de Eddie Matazzoni, cheia de até mesmo algum refinamento, além da montagem acurada de Harry Jierjian (de Com Amor, Simon), que organiza o ritmo do filme para ocupar gêneros que se cruzam e intercomunicam de maneira adequada. Perceber que uma produção tenta impressionar em muitos quesitos, e sai do padrão esperado para alcançar novas vias de comunicação – material estético e narrativo – é a prova de que o entretenimento não pode ser tratado como descartável. E eu nem citei os ótimos efeitos especiais, bastante acima da média.

A dupla de protagonista é a mais adequada possível para o tratamento de normalidade que o filme procura. Lana Condor (da cinessérie Para Todos os Garotos que Já Amei) não é vendida pelo padrão social hegemônico, e Cole Sprouse (de Riverdale e… você sabiam que esse CARA é a criancinha que protagonizou O Paizão ao lado do Adam Sandler?) tem excelente emprego de comicidade em sua performance. Não há química entre eles, e isso é bom, porque não há cruzamento em suas linhas de raciocínio; quando eles se percebem, pode ser tarde demais. E esse é uma das qualidades de Nossos Sonhos de Marte, mostrar que as individualidades devem vir em primeiro lugar. Que bela mensagem para uma comédia romântica, não?

Um grande momento
Passeio espacial

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Assinar
Notificar
guest

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver comentário
Botão Voltar ao topo