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O Anúncio

Entre o silêncio e o disparate

(Anons, TUR, BUL, 2017)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Mahmut Fazil Coskun
  • Roteiro: Mahmut Fazil Coskun, Ercan Kesal
  • Elenco: Ali Seçkiner Alici, Tarhan Karagöz, Murat Kiliç, Sencan Güleryüz, Serkan Ercan, Erdem Senocak, Mehmet Yilmaz Ak
  • Duração: 94 minutos

Faltando 10 minutos pro fim, um dos personagens conta uma piada em O Anúncio, produção turca vencedora do Grande Prêmio do Júri (espécie de segundo lugar) da secção Orizzonti do Festival de Veneza 2018. Anunciado como uma comédia, a cena é constrangedora, incômoda, gélida, como tantas outras que percorrem a produção, e daí concluímos de onde o filme extrai o que ele considera humor, que é percebido ao longo da projeção. Como usar uma calça apertada, é muito difícil se sentir confortável durante o filme, e isso é um ponto extremamente positivo, porque esse lugar é perseguido pelo artista que o criou. 

Trata-se de Mahmut Fazil Coskun, cineasta com alguma experiência que aqui consegue um acerto que projeta sua obra, merecidamente, se pensarmos somente no trabalho visto aqui. Todas as expressões que liguem seu filme à comédia propriamente dita estarão equivocadas de saída, porque não temos um laço característico que o ligue à tradição do cinema de gênero. O que definiria o longa nesse escaninho não é facilmente visto ou assimilado, porque sua textura rarefeita tenta justamente escapar das definições prévias para introduzir ao espectador uma experiência de sufocamento ante uma realidade ao mesmo tempo ridícula e assustadora. 

O Anúncio (2017)

Composto por planos raramente móveis, o filme tenta com essa decisão provocar uma ideia de aprisionamento de plano e tradicionalismo formal que traduzem a jornada como a perseguição de um grupo de homens forjados no passado e radicalmente reféns de um tempo em mutação. Ao seu redor, a modernidade grita – ou canta, no caso da Rádio Istambul, que tenta apresentar música do mundo ao ouvinte, como um sopro de renovação oriunda do exterior ainda que o mesmo possa vir a ser países igualmente repressores. O posterior surgimento da geladeira na narrativa, e a obsessão dos personagens pelo objeto os coloca à deriva de um tempo que já não lhes pertence. 

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Para deixar o espectador consciente da seriedade dos seus atos e da índole de seus retratados, Coskun rasga o automatismo das relações ali dispostas por duas vezes com uma violência não programada – o golpe militar é real, diz o roteiro. Essa multiplicidade de sentimentos que O Anúncio molda ao longo da sua enxuta duração, da qualidade do seu discurso e da reverberação atual das ações empreendidas no filme, reconfiguram o material filmado à luz do renascimento do fascismo que, adormecido por tantos anos, volta a nossa realidade sendo desejado por uma fatia da sociedade, ainda que abafada pela consciência da maioria; até quando?

A constante ausência de luz a cada chegada daquele comboio de lunáticos perversos é outro dado que o filme apresenta com elegância, sem explicitar suas intenções. A Turquia que o filme mostra é um país ameaçado pelas trevas constantemente, cuja luz é trazida sem abundância e nem sempre da forma adequada. Durante a noite onde a narrativa é ambientada transcorre, essa iluminação que se esvai a cada aparecimento do quarteto protagonista é uma mensagem a respeito da chegada da escuridão que a repressão nos lega. Que o amanhecer traga o esclarecimento e posterior arrefecimento das forças do mal é um dado cinematográfico a respeito dos esforços que o próprio cinema é capaz de fazer pra drenar as constantes tentativas de destruir a democracia, em qualquer parte do mundo. 

O Anúncio (2017)

Coskun constrói cada um desses planos fixos com precisão meticulosa. Nenhum elemento está em cena por acaso, cada objeto precisa ser reparado para compor o quadro geral pretendido em cada fotografia viva que ele propõe. Seja nos carros em suas viagens eventuais, seja nos ambientes onde frivolamente se debate o futuro do mundo, seja na rádio em que se pretende calar (tradicionalmente é o local a ser emudecido, sempre, principalmente um que dá voz ao mundo), o filme aprisiona suas cenas e formata esse recurso para que nossa zona de observação seja restrita ao que o diretor deseja que nosso olhar alcance, como em uma ditadura.

Basicamente um filme que se divide entre o silêncio ameaçador e os diálogos disparatados e nonsense, sinalizando a ausência de normalidade, juízo e sanidade em seu núcleo central, O Anúncio é uma surpresa das mais felizes em matéria de lançamento em 2021 no nosso circuito, uma joia política contemporânea que, com a força do incômodo que impõe ao espectador cena e a cena, reafirma o mínimo estrago que o medo e a desconfiança fazem a uma sociedade, saltando da tela ao transpor repleto de ansiedade o horror da possibilidade do fascismo, e a luta literalmente invisível pelo fim do mesmo. 

Um grande momento
O atraso de Rifat

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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